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Entrevista com Professor Nelson Annunciato, especialista em Neurociências ao Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão

Professor Nelson Annunciato

O Professor Nelson Annunciato, Doutor em Neurociências concedeu esta breve entrevista após ter ministrado no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, em Abril de 2008, o Seminário «Plasticidade do Sistema Nervoso: uma oportunidade para a reabilitação».

 

 

As neurociências têm uma missão incomparável, qual seja, de poder esclarecer e integrar de maneira biológica, química e estrutural a formação, o desenvolvimento e as funções do maravilhoso sistema nervoso.

1 - Considera uma viragem crucial o momento em que se faz a descoberta que o sistema nervoso se reabilita a si mesmo, quando se pensava que era inviável reparar?

Resposta: Sem sobras de dúvidas, uma das maiores e mais fascinantes descobertas é a de que o sistema nervoso possui esta capacidade plástica, não só durante a fase pré-natal, nao só durante o processo de aprendizagem e memória, mas também após processos lesionais. Muitos cientistas, com os quais concordo veementemente, afirmam que esta descoberta é mais importante para a humanidade do que a ida do homem à Lua.

2 - O que considera ser o alvo das neurociências?

Resposta: As neurociências têm uma missão incomparável, qual seja, de poder esclarecer e integrar de maneira biológica, química e estrutural a formação, o desenvolvimento e as funções do maravilhoso sistema nervoso, deslumbrando-o como um verdadeiro "neuro-universo". Tudo isso, evidentemente, extrapolando o puro âmbito da pesquisa de laboratório e espraiando-se pelos terrenos da aplicação prática (como as terapias).

3 - Em que medida o estudo das neurociências contribui para a evolução da ciência e da medicina nos dias actuais?

Resposta: Exactamente no momento em que elas (neurociências) nao só tangenciam, mas antes, entrelaçam-se com as terapias, quer sejam elas medicamentosas, psicológicas, fisioterapêuticas, fonoaudiológicas, ocupacionais etc. Ou seja, as neurociências devem ofertar um actual e vasto campo de conhecimentos sobre os funcionamento do sistema nervoso, facilitando a compreensão sobre ele e, ao mesmo tempo, contemplar as possibilidades terapêuticas.

Destaque
«as terapias não só se ocupam com os músculos, tendões e articulações, mas  também e de maneira importante, influenciam, através da periferia, o sistema nervoso»

4- Qual a importância das terapias? Quais são para si as mais adequadas neste âmbito?

Resposta: A importância das terapias encontra-se no espectro de possibilidades, através das quais podemos influenciar e modificar (modelar e remodelar) o sistema nervoso, tanto do ponto de vista químico (neurotransmissores), como do ponto de vista estrutural (receptores da membrana pós-sináptica, botões pré e pós-sinápticos, circuitos sinápticos etc).

Com outras palavras: as terapias não só se ocupam com o músculos, tendões e articulações, mas  também e de maneira importante, influenciam, através da periferia, o sistema nervoso, pois, em realidade, é ele que integra e coordena todas as funções corpóreas. Torna-se difícil para mim dizer quais terapias são mais adequadas. Sempre costumo responder: "depende". Ou seja, depende da idade do paciente, do local da lesão, da extensão da lesão, da biografia do paciente (suas experiências sensitivo-motoras), programa genético etc. Assim, o ideal é encontrar um "programa terapêutico", o qual se adapte às necessidades INDIVIDUAIS do paciente. Neste sentido, dever-se-á, muitas vezes, combinar recursos terapêuticos de "métodos" distintos. Não no sentido de confundir os conceitos terapêuticos, mas, antes, de utilizar os recursos adequados para CADA paciente individualmente. Costumo dizer: "Quem conhece apenas um MÉTODO terapêutico procura adaptar o paciente a este programa terapêutico. Entretanto, o correcto seria adaptar um PROGRAMA TERAPÊUTICO ao paciente!".

5 - O que é para si o «neuro-universo»?

Resposta: O "neuro-universo" é para mim uma maneira quase que poética de descrever um dos sistemas mais fascinantes que possuímos. Mesmo que já se conheça alguma coisa sobre ele, há, ainda, uma imensidão a ser desvendada.

6 - Concorda com a clonagem humana para fins terapêuticos? Porquê?

Resposta: Bem, sabemos quão polémico é este assunto. Evidentemente, toda e qualquer pesquisa, a qual possa trazer benefícios para a humanidade, deve ser estimulada. Entrementes, há outras possibilidades de se conduzir pesquisas com células-tronco, como, por exemplo, com células-tronco adultas (medula óssea vermelha, só para citar um exemplo). Além disso, nossos entendimentos sobre os Factores Neurotróficos são parcos e deveriam ser aprofundados.

Destaque
"Não dê mais anos à vida. Dê mais qualidade aos anos!"

7 - Como pode avaliar o futuro em termos gerais? Para onde caminhamos?

Resposta: Bem, a pergunta me parece muito ampla e eu prefiro restringi-la ao assunto ora em tela, qual seja, neurociências. Desta forma, quando analisamos os últimos vinte anos das neurociências, verificamos um conhecimento acumulado maior do que nos últimos 200 anos. Portanto, as "tentativas-teimas" de se compreender o sistema nervoso e de se ofertar processos terapêuticos adequados para (1) PREVENIR o aparecimento e ou desenvolvimento de disfunções e ou (2) RECUPERAR funções perdidas, conduz-nos a uma melhora na qualidade de vida. Como li certa feita: "Não dê mais anos à vida. Dê mais qualidade aos anos!"