Nas ruas de Lisboa, para prevenir a obesidade
Equipas de médicos e de enfermeiros da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa identificam os fatores de risco da obesidade junto da população em mais um rastreio do programa "Saúde Mais Próxima".
Raúl Félix, de 37 anos, tem 1,73 m de altura e 90,6 kg de peso, 98 cm de cintura e 113 de anca. São valores que estão acima dos normais e que já o colocam no grupo dos obesos.
Imigrante, natural de Angola, Raúl Félix foi um dos utentes recebido hoje numa das unidades móveis de saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que, desde o dia 17 de Julho, percorrem a cidade de Lisboa realizando rastreios da obesidade à população.

Esta é uma ação integrada no programa "Saúde Mais Próxima" cujo objetivo é promover e sensibilizar a população para algumas das patologias que mais afetam os portugueses.
Iniciada em Maio com o rastreio de doenças respiratórias, esta iniciativa prossegue com o rastreio da obesidade até ao próximo mês de Outubro, associada à Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).
Uma tenda insuflável com sete metros de diâmetro montada no Terreiro do Paço, chama a atenção para a iniciativa. Raúl Félix é recebido pela enfermeira Telma que começa por recolher os seus dados pessoais para juntar às estatísticas: o peso, a altura, o índice de massa corporal.
A seguir, num outro compartimento, a enfermeira Joana mede-lhe o perímetro da cintura e da anca, mede-lhe a tensão e avalia os níveis de glicémia e de colesterol.
A avaliação prossegue com as perguntas sobre a alimentação que revelam um exemplo do que não se deve fazer para não engordar.
- O que costuma comer ao pequeno almoço? - Uma bolacha, uma sandes...
- Quantas refeições faz por dia?
- Umas três...
- Planeia as refeições ou come o que há?
- Como o que há. - E costuma beber água?
- Meio litro, talvez menos... "Ai tanta asneira" , protesta a enfermeira Maria Luis, enquanto regista os dados.
- E exercício físico, faz?
- Não tenho tempo, a vida de emigrante é sempre a correr, justifica-se Raúl.
- É uma questão de vontade... nota a enfermeira.
50% dos portugueses têm excesso de peso
A etapa seguinte do rastreio é a avaliação da jovem médica nutricionista, Ana Sofia. Compete-lhe analisar a ficha de informações do utente, medir a massa gorda e propor um plano de alimentação para corrigir ou prevenir os riscos de obesidade.
A médica analisa os hábitos alimentares e identifica os fatores de risco e os erros cometidos. Chama a atenção para a necessidade de "diminuir o sedentarismo e as calorias" junto de quem precisa de reduzir o peso, tendo em vista que a obesidade traz habitualmente associadas doenças como a hipertensão, a diabetes ou o cancro.
A obesidade está indicada como um dos principais problemas de saúde pública deste século em Portugal e no mundo dito desenvolvido. Segundo dados divulgados recentemente pelo médico dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Francisco Castro e Sousa, mais de 50 por cento dos portugueses tem excesso de peso e 14 por cento obesidade mórbida.
O problema atinge cada vez mais a população jovem, como revela o estudo Health Behaviour in School-aged Children sobre os estilos de vida dos adolescentes europeus, que é realizado de quatro em quatro anos em colaboração com a Organização Mundial de Saúde.
Segundo o último inquérito que abrangeu cerca de 200 mil jovens, Portugal faz parte do grupo de países com maior percentagem de jovens com excesso de peso ou obesidade.
Um ano a medir a saúde dos lisboetas

O imigrante Raúl Félix foi uma das 120 pessoas que, em média, procuram diariamente as unidades móveis de saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que há quase três meses percorrem os vários bairros da cidade (como Armador, Ameixoeira e Padre Cruz) para fazer rastreios à população, no âmbito do programa "Saúde Mais Próxima". Nesta ação trabalha uma equipa composta por nove enfermeiros, dois nutricionistas, três auxiliares e três motoristas.
Este programa, centrado nas doenças crónicas, prosseguirá ao longo de um ano, até Maio de 2013, com vários outros rastreios, os mais próximos dos quais serão os das doenças cardiovasculares e da diabetes. "Os pilares deste programa são detetar a doença, encaminhar, sensibilizar para hábitos mais saudáveis e prevenir", explica a coordenadora da "Saúde Mais Próxima", a psicóloga Noémia Silveiro. "Queremos cobrir a cidade de Lisboa e, ao fim de um ano, estarmos em condições para saber qual o estado de saúde dos lisboetas".
No âmbito do rastreio anterior sobre as doenças respiratórias, foram realizados 3500 rastreios gerais e três mil espirometrias, exames que permitem medir a quantidade de ar respirado pelos pulmões, confirmar a doença e definir o seu grau de gravidade.
Numa época de crise generalizada e de maiores dificuldades de acesso à saúde, o programa "Saúde Mais Próxima" contribui para o cumprimento da missão da Santa Casa da Misericórdia, nota Noémia Silveiro. "É pelas pessoas que nós existimos", sublinha.
6 de Agosto de 2012