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Lesões Vertebro-medulares
Sendo um dos mais devastadores e traumáticos eventos que um ser Humano pode vivenciar, a lesão vertebro-medular obriga o doente a adaptar-se a uma realidade completamente nova, com uma série de dificuldades e obstáculos. Ao mesmo tempo, sente-se assolado por um variado leque de emoções negativas. Perante esta realidade, torna-se necessário a disponibilização de recursos específicos e de um extraordinário suporte tanto ao nível físico, através de uma eficaz reabilitação, como ao nível emocional e psicológico, de modo a que o doente possa enfrentar e gerir a sua nova realidade da melhor maneira possível (Amaral, 2009).

Os avanços que têm sido obtidos em investigação científica e clínica na área das lesões vertebro-medulares transmitem a esperança, tanto aos médicos e profissionais da área como aos doentes, de que a cura para a lesão vertebro-medular é um objetivo atingível. No entanto, a prevenção de lesões deverá ser uma prioridade tanto para o Estado como para a Sociedade, devendo abranger, para além da população em geral, a população mais jovem, estrato que mais sofre das lesões vertebro-medulares traumáticas, e também a população mais idosa, dado que a idade é também um fator de risco da lesão não traumática (National Institute of Neurological Disorders and Stroke , 2012). A prevenção deverá, também, ser pensada ao nível da segurança no local trabalho, uma vez que os acidentes de trabalho têm uma contribuição significativa para este tipo de lesão.


Causas
As lesões vertebro-medulares resultam de traumatismos ou doenças que afetam a espinal medula (Linsey, Klebine, & Wells, 2000), sendo as provocadas por traumatismos mais frequentes do que as provocadas por doença. Em Portugal, a causa maioritária das lesões vertebro-medulares é traumática e, em 39% destes casos, é devida a acidentes de viação. No entanto, também contribuem para a lesão traumática, acidentes de trabalho, quedas de altura elevada, agressões a tiro e atividades como surf, bodyboard, mergulho e parapente, entre outros (Simões, 2008).

As lesões não traumáticas são normalmente provocadas por doenças ou condições patológicas, como lúpus, alterações da função vascular tumores, infeções, malformações e processos degenerativos ou compressivos (Cerezetti, Nunes, Cordeiro, & Tedesco, 2012) & (Pedro, 2011). Num estudo efetuado no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (Almeida, Ferreira, & Faria, 2011), foi evidenciado que as lesões vertebro-medulares não traumáticas afetam ligeiramente mais o sexo masculino (55,1%) do que o feminino. A média das idades dos doentes destas lesões era de cerca de 58 anos. As causas das lesões não traumáticas detetadas no estudo foram: causa neoplásica (20,3%), degenerativa (18,8%), iatrogénica (18,8), infeciosa (15,9%), idiopática (13%), vascular (11,6%) e autoimune (1,4%).


Incidência
Um estudo de incidência mundial realizado sobre as lesões vertebro-medulares de natureza traumática (Lee, Crips, Fitzharris, & Wing, 2013), efetuado em 2011, estimou que a taxa de incidência global destes casos é de 23 casos por milhão, ou seja 179 312 casos novos por ano. 
Diversas taxas de incidência de países da Europa Ocidental foram reportadas nesse estudo, sendo que a mediana calculada foi de 16 casos por milhão. Num outro estudo (van den Berg, Castellote, Mahilo-Fernandez, & de Pedro-Cuesta, 2010) foi referida uma taxa de incidência de lesões vertebro-medulares traumáticas, em Portugal, na ordem dos 57.8 indivíduos por milhão.

De um modo geral, as lesões vertebro-medulares traumáticas ocorrem com mais frequência no sexo masculino do que no feminino (numa proporção de 8:2) e nos jovens, sendo o grupo etário dos 15-25 anos, o que acarreta cerca de 50% das lesões vertebro-medulares traumáticas (Simões, 2008).


Compreender a lesão
De modo a tentar compreender como ocorrem as lesões vertebro-medulares, torna-se necessário compreender um pouco da anatomia da coluna vertebral e da espinal medula. A coluna vertebral, que consiste no suporte mais importante do corpo humano, encontra-se dividida em secções e é composta por 33 vértebras, 24 das quais são móveis e 9 fixas (Linsey, Klebine, & Wells, 2000) & (Simões, 2008).

A espinal medula, o maior nervo do corpo Humano, funciona como uma via utilizada para enviar as mensagens entre o cérebro e as restantes partes do corpo. Mede cerca de 42 a 45 cm nos adultos, e é protegida pelas vértebras da coluna vertebral. A espinal medula prolonga-se desde a base do cérebro até um pouco abaixo da cintura. Os nervos raquidianos ligam a espinal medula aos músculos esqueléticos e são oito pares de nervos cervicais, doze pares de nervos torácicos, cinco pares de lombares, cinco pares de nervos sagrados e um par de coccígeo (Linsey, Klebine, & Wells, 2000) & (Simões, 2008).

Numa lesão vertebro-medular traumática, ocorre, normalmente, uma fratura, compressão ou deslocamento de vértebras que protegem a espinal medula. Os danos são normalmente causados pelos fragmentos de ossos, de discos ou de ligamentos que ferem ou dilaceram a espinal medula e/ou os nervos raquidianos. Numa doença ou infeção, o mesmo resultado pode acontecer. Depois de uma lesão vertebro-medular ocorrer, os nervos raquidianos que se encontram na parte superior à lesão funcionam normalmente, enquanto os que se encontram no local da lesão ou abaixo, deixam de poder enviar "mensagens" ao cérebro ou a qualquer parte do corpo, como faziam anteriormente (National Institute of Neurological Disorders and Stroke , 2012) & (Linsey, Klebine, & Wells, 2000).

As lesões vertebro-medulares são descritas, consoante o local onde ocorreu a lesão e a sua gravidade, por níveis e tipos. Quanto mais perto do cérebro ou do início da espinal medula for a lesão, maior será o impacto na capacidade da pessoa se movimentar. As lesões podem ser completas ou incompletas consoante a lesão impede, ou não, as funções motora e/ou sensorial ao nível das vértebras S4 ou S5 (Linsey, Klebine, & Wells, 2000).

Quando a lesão atinge as vertebras C1 até T1, está-se perante uma condição de tetraplegia, na qual as partes que poderão ser afetadas, ao nível motor e sensorial, são a cabeça, o pescoço, os ombros, os braços e a parte superior do peito. A lesão nas vértebras T2 a S5 implica uma condição de paraplegia, na qual o peito, o estômago, as ancas, as pernas e os pés podem ser afetados (Linsey, Klebine, & Wells, 2000).

Após uma lesão vertebro-medular, poderão surgir complicações médicas como dor crónica, disfunção urinária, úlceras de pressão (revestimento cutâneo), alterações de vesícula, complicações intestinais e sexuais, depressão e problemas cardíacos e respiratórios (National Institute of Neurological Disorders and Stroke , 2012) & (Faria, 2006) & (Simões, 2008).

Com o avanço da medicina e tecnologia, a esperança de vida em doentes com lesão vertebro-medular tem vindo, gradualmente, a tornar-se muito próxima da média global de longevidade (Faria, 2006).


Custos
De acordo com dados dos EUA, a média das despesas referentes ao primeiro ano após a lesão de um paciente paraplégico é cerca de 508.904 USD. Para os doentes tetraplégicos, as despesas podem variar entre 754.524 USD e 1.044.197 USD, conforme a gravidade da lesão. O custo estimado até ao fim de vida de um doente de lesão vertebro-medular pode variar entre 1.092.521 USD e 4.633.137 USD, conforme o local e a gravidade da lesão, bem como a idade do doente aquando do momento da lesão (National Spinal Cord Injury Statistical Center, 2013).

Um estudo realizado entre 2009 e 2010 em Portugal mostra que as "pessoas com alterações das funções orgânicas e/ou neuromusculoesqueléticas que não têm restrições (ou com restrições moderadas) na execução de tarefas que implicam faculdades manipulativas, mas com problemas severos de mobilidade (mudar a posição básica do corpo) que implicam necessidade de apoio pessoal e de dispositivos de auxílio (nomeadamente cadeiras de rodas) para mover o corpo e realizar deslocações, assim como de adaptações nos meios de transporte" têm um custo total mensal de 1.604 euros e 19.248 euros anuais, tendo uma contribuição do Estado de 997 euros, o que perfaz um custo efectivo de 18.251 euros (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra).


Bibliografia

Almeida, C., Ferreira, A., & Faria, F. (2011). Lesões medulares não traumáticas -Caraterização da população de um centro de Reabilitação. Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação, Vol. 20.

Amaral, M. T. (2009). Encontrar um novo sentido da vida: após um estudo explicativo da adaptação após lesão medular. Revista da Escola de Enfermagem - USP.

Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Obtido em Abril de 2014: http://www.ces.uc.pt/myces/UserFiles/livros/1097_impactocustos%20(2).pdf

Cerezetti, C. R., Nunes, G. R., Cordeiro, D. R., & Tedesco, S. (2012). Lesão Medular Traumática e estratégias de enfrentamento: revisão crítica. O Mundo da Saúde, pp. 318-326.

Faria, F. (2006). Lesões vértebro-medulares - A perspectiva da reabilitação. Revista Portuguesa de Pneumologia, pp. 46-53.

Lee, B., Crips, R., Fitzharris, M., & Wing, P. (2013). The global map for traumatic spinal cord injury epidemiology: update 2011, global incidence rate. Spinal Cord.

Linsey, L., Klebine, P., & Wells, M. J. (2000). Obtido em Maio de 2013, de UAB School of Medicine: http://www.uab.edu/medicine/sci/uab-scims-information/sci-infosheets

National Institute of Neurological Disorders and Stroke . (31 de Dezembro de 2012). Obtido em Maio de 2013, de National Institute of Neurological Disorders and Stroke: http://www.ninds.nih.gov/disorders/sci/sci.html

National Spinal Cord Injury Statistical Center. (2013). Facts and Figures At a Glance 2013. Obtido em Maio de 2013, de University of Alabama at Birmingham: https://www.nscisc.uab.edu/

Pedro, A. S. (2011). Caracterização de adultos com lesão medular em regime de internamento. Tese de Mestrado. Universidade de Aveiro - Departamento de Educação.

Simões, C. M. (2008). Paraplegia: Prevalência, Etiologia e Processo de Reabilitação. Tese de Mestrado. Universidade do Minho - Instituto de Educação e Psicologia.

Van den Berg, M., Castellote, J., Mahilo-Fernandez, I., & de Pedro-Cuesta, J. (2010). Incidence of spinal cord injury worlwide: a systematic review. Neuroepidemiology.