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Aldeia de Santa Isabel, projeto intergeracional

Os jovens recebem formação profissional, as crianças e os idosos protecção no primeiro projeto intergeracional da SCML.

Núbia Sousa já é quase cabeleireira. Tem 17 anos e veio ainda pequena do Paraná, Brasil, com os pais, imigrantes em Portugal. 

Há mais de um ano, encontrou um rumo de vida na Aldeia de Santa Isabel (ASI), depois de ter "chumbado muitas vezes" e de ter sido mãe aos 15 anos. Decidiu candidatar-se ao curso profissional de cabeleireiro que funciona na ASI e entrou. "Eu gosto e é uma maneira de garantir o futuro da minha filha", diz, tímida e sorridente, enquanto coloca rolos no cabelo de um manequim. 

O curso profissional de cabeleireiro é um dos nove que funcionam naquela instituição da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, situada em Albarraque, nos arredores de Sintra.

Projeto de inserção social intergeracional, a Aldeia de Santa Isabel, acolhe crianças, jovens em risco e idosos num espaço de 6,5 hectares, onde antes funcionava um orfanato católico. Além das oficinas reservadas para a formação profissional de jovens desfavorecidos, existem também na ASI, construída à semelhança de uma aldeia saloia, com jardins e uma igreja, um lar, onde são acolhidas crianças sob proteção judicial, outro lar para idosos e ainda dois chalés, onde são instalados os mais autónomos. 

Núbia Sousa completou apenas o 7.º ano mas agora está quase apta para trabalhar no cabeleireiro que a mãe tem em Lisboa. Já faz madeixas, brushings e mises, técnicas que aperfeiçoa todos os dias. Às quintas-feiras de manhã, o salão abre para clientes de fora, altura em que Núbia dá o seu melhor.

Com ela, no último ano, trabalham 12 raparigas. À tarde, são 17 formandos, entre os quais dois rapazes. A mestre, Paula Carvalho, de 44 anos, é a sua formadora. Há 17 anos que se dedica à formação na Aldeia de Santa Isabel, procurando transmitir aos jovens valores como "perseverança ou humildade", diz. 

No início, a ideia de ser formadora não agradou a Paula Carvalho. "Hoje, não me imagino, senão a formar estas jovens", afirma, destacando os aspetos "gratificantes" dessa ação.

Foi da sua mão que saiu uma formanda que hoje tem um cabeleireiro seu em Dublin, na Irlanda, onde tem tido o maior sucesso, conta, radiante.  

Aprender, fazendo

Os nove cursos de formação profissional que funcionam na ASI, entre os quais os de construção civil, pintura automóvel, eletricidade, ou jardinagem, são frequentados  por 260 formandos e orientados por cerca de 50 formadores.

Stefan Iuras, de 17 anos, romeno, é um dos formandos do curso de Bate-Chapas e Recuperação de Carroçaria, frequentado por um total de 25 rapazes, entre os 15 e 19 anos. 

"Tinha muitas negas e gosto de mexer em carros", conta. Foi esse o motivo que o levou a candidatar-se. No futuro, quer "abrir uma oficina" e "ajudar o pai" que trabalha no ramo, perto de Sintra. "Desde que mexa em carros, estou satisfeito".

"Realiza-me vê-los atingir os seus objetivos", diz José Fernando Silva, 60 anos, formador há 30 na Aldeia de Santa Isabel. "O mais difícil é a indisciplina e o não aproveitamento, mas todos os que saem da minha mão têm trabalho", sublinha. 

Um dos objetivos para 2015 é que estes cursos possam ter equivalência ao 12.º ano, diz o diretor da ASI, António Antunes. 

Primeiro centro intergeracional da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Aldeia de Santa Isabel integra o Lar Padre Agostinho da Motta, que acolhe crianças sob proteção judicial. Ali residem 16 crianças dos 6 aos 18 anos, vítimas de maus-tratos e retiradas à família. No lar, a intenção é proporcionar-lhes "o ambiente seguro" que os pais não conseguem, explica Celice Brogueira, a diretora.

Nas camas cobertas com colchas de várias cores, há vários bonecos de peluche e, em cima dos armários, caixas de papelão que guardam segredos e histórias de vida de cada um. 

"Vão à escola durante o dia, utilizam os equipamentos externos para vários tipos de atividades e, aos fins de semana, participam em atividades com os mais velhos, promovendo a intergeracionalidade", como, por exemplo, os jogos tradicionais.

É aos fins de semana que há mais convívio entre as crianças e os residentes do Lar de São João de Deus, onde residem 51 idosos. Diariamente participam em exercícios motores de estimulação motora e cognitiva, muitos deles orientados pela terapeuta ocupacional Claudia Valles. 

Grande parte está em situação de grande isolamento, não tem família próxima ou não recebe uma única visita durante a sua permanência no lar, conta a diretora, Marta Paulino.

O contacto com os mais novos é, por isso, "muito estimulante", nota. É ver as crianças a empurrar cadeiras de rodas dos mais velhos e ouvi-las a dizer, em relação aos idosos, que são "como uma espécie de avós", conta Celice Brogueira.

15 de janeiro de 2015