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Centro de Apoio Social de São Bento reabre portas

Os ateliers ocupacionais do Centro de Apoio Social de São Bento reabriram portas. O burburinho e o movimento já se fazem sentir nos corredores e nas salas. As ferramentas não param e os produtos artesanais começam a ganhar forma. 

Depois de mais de dois meses em casa, cerca de 50 utentes voltaram ao trabalho, à rotina, à terapia e ao convívio no Centro de Apoio Social de São Bento (CASSB), um espaço dedicado à promoção da integração de pessoas em situação de exclusão social e de sem-abrigo em Lisboa, que inclui três ateliers ocupacionais, uma loja de venda de produtos artesanais, um balneário, um refeitório e um espaço de inclusão digital.

Carlos Coelho, 60 anos, nascido na freguesia do Socorro, é um dos utentes dos ateliers ocupacionais do Centro de Apoio Social de São Bento. De segunda à sexta-feira, das 9h00 às 16h30, Carlos trabalha no atelier de cozinha. Rigorosamente equipado com avental, luvas, máscara e touca, prepara o almoço para si e para os colegas. 

"Hoje temos sopa de grão com espinafres e frango à mata. Querem almoçar?", convidou. Confessamos que cheirava muito bem, mas, infelizmente, o nosso compromisso profissional não nos permitiu aceitar.

Carlos assume que sentiu falta da cozinha, dos colegas e dos técnicos. "Foram mais de dois meses. É muito tempo. Já tinha saudades", diz o sexagenário, lembrando que frequenta o Centro desde 1997. Esta segunda-feira, 18 de maio, regressou a este espaço.


Não teve uma vida fácil. Foi deixado à sua sorte com apenas 18 meses. "Fui criado pela Santa Casa. Sou filho da Santa Casa", afirma Carlos Coelho. Mais tarde, entrou na Casa Pia para aprender um ofício. Fez um pouco de tudo. Foi pastor, agricultor, pintor de construção civil e trabalhou na restauração. Um dia foi para a rua. "É mais fácil do que possam pensar", dá conta.

Em 1997, o destino levou-o de volta à Misericórdia de Lisboa. Veio para o Centro de Apoio Social de São Bento. "Esta casa ensinou-me que qualquer Homem deve ter um trabalho, por mais pequeno que seja. Os ateliers são uma oportunidade, uma ocupação para quem sai da rua. Dão-nos regras, horários, um propósito e autoestima".

Carlos admite que não consegue imaginar a vida fora do CASSB. "Esta casa é muito importante para mim". 

No atelier de produtos artesanais, João (nome fictício), 40 anos, está a construir uma pequena casa de madeira para ser colocada à venda na loja do Centro. É um dos utentes mais recentes, entrou no CASSB em março deste ano.

João perdeu o trabalho, perdeu o chão, mas encontrou apoio na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Aos poucos vai conseguindo ultrapassar a depressão onde mergulhou. "No Centro, tenho cabeça ocupada, dão-me conselhos, mostram-me o caminho". 

A notícia da reabertura foi recebida com enorme alegria. "Estava em casa há muito tempo. Sentia falta de estar ocupado. O estar ocupado deixa-me em paz". Por agora, João quer duas coisas: paz de espírito e ajudar a sua companheira que o tem ajudado numa fase muito difícil.


Para Ana Zagallo, diretora do Centro de Apoio Social de São Bento, esta resposta "dedica-se essencialmente a trabalhar as competências dos utentes e a tentar, quando possível, integrá-los no mercado de trabalho. As atividades permitem que estes utentes possam adquirir regras, rotinas, conquistando sentimento de pertença e laços afetivos".

Todos os dias, quando vinham buscar a alimentação ao Centro, perguntavam pela reabertura do Centro. "Foi muitíssimo importante reabrir, porque estas pessoas têm que estar ocupadas", salienta a responsável. "A maior parte destas pessoas sofre de algum tipo de problema de saúde mental e/ou físico", refere ainda.

Há uma relação entre a loja e a realização pessoal dos utentes, avança Ana Zagallo. "A venda dos produtos elaborados nos ateliers, permite que os utentes vejam o seu trabalho reconhecido. A nossa maior satisfação é poder vê-los com a vida estabilizada", conclui.

Centro de Apoio Social de São Bento

À entrada do século XX, na zona de São Bento, junto ao Palácio das Cortes (atual Assembleia da República), a Sociedade Protetora das Cozinhas Económicas encomendara a construção da Cozinha Económica nº 6, tendo sido inaugurada em abril de 1906. Tal como as congéneres, esta cozinha destinava-se a proporcionar refeições acessíveis à população mais carenciada, sobretudo à classe operária. 

Em 1928, as cozinhas foram transferidas para a Santa Casa da Misericórdia, sobrevivendo hoje os edifícios de apenas duas, nos Anjos e em São Bento. Foi nesta última que a Santa Casa instalou, em 1997, o Centro de Apoio Social de São Bento. A criação deste equipamento que se instalou em São Bento, dedicado à promoção e apoio à integração de indivíduos em situação de exclusão social e de sem-abrigo em Lisboa. Ultrapassando hoje largamente as funções iniciais da Cozinha Económica n.º 6, inclui três ateliers ocupacionais, uma loja de venda de produtos artesanais e um espaço de inclusão digital, sendo uma referência no coração da cidade.