Notícias


Dois anos de “Liberdade”

Junto ao pulmão de Lisboa há uma unidade de saúde próxima das pessoas. A USSC Liberdade foi inaugurada há dois anos e já atendeu 1524 utentes.

Na sala de espera, quatro utentes esperam a sua vez. Os 30 graus de um dia quente de julho justificam o vídeo que passa na televisão, recomendando os cuidados a ter com o sol. Noutro dia, poderíamos assistir a conselhos para uma alimentação saudável ou para a prevenção da saúde oral.

No canto da sala, paciente e bem-disposto, o senhor Pompeu, de 75 anos, posa para a fotografia e conta que se está a “dar melhor aqui do que no posto médico onde andava”. Da experiência na unidade, que passa por ter ido “duas ou três vezes ao médico” e ter feito “uma data de exames”, só tem elogios: “tudo o que tenho a contar daqui é bom”.

Dois anos depois da inauguração, a Unidade de Saúde Santa Casa (USSC) Liberdade já atendeu 1524 utentes, segundo o coordenador deste equipamento, o médico Alexandre Zacarias, que nos conduz numa visita guiada ao espaço.

Passamos por um dos gabinetes de saúde para saúde de adultos, saúde materna e planeamento familiar onde um jovem utente, envergonhado com a passagem da equipa de reportagem, aguarda pelo veredito da médica para saber se pode ir à piscina…

O balanço que o coordenador da USSC faz é o melhor, também porque da parte dos utentes “o feedback tem sido bastante positivo”. É com visível orgulho no trabalho realizado e na equipa que coordena que Alexandre Zacarias nos convida a conhecer a unidade, explicando-nos como foi possível chegar aqui.

 A “Liberdade” foi possível graças a uma parceria entre o Centro Social Paroquial de São Vicente de Paulo e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). O centro tinha o espaço, onde já funcionava a Fisioterapia ao serviço do Sistema Nacional de Saúde (SNS), que se mantém, e tinha várias salas desocupadas. Hoje, todo o espaço está aproveitado ao máximo, com cada sala a servir as várias valências que a USSC oferece.

O equipamento destina-se à população dos bairros da Liberdade e da Serafina. “É uma zona problemática, com algumas dificuldades, penso que serviu bem a população e todos estamos satisfeitos com a atividade aqui desenvolvida”, defende o coordenador. Alexandre Zacarias explica que “o trabalho tem que ser adaptado e temos que aceitar que é uma população carenciada que muitas vezes tem dificuldades em adquirir os medicamentos o que obriga a uma certa ginástica”.

Os utentes da unidade podem beneficiar, de forma gratuita, de consultas de clínica geral, saúde infantil, saúde materna, planeamento familiar, consultas de cessação tabágica, enfermagem com consultas, tratamento e vacinação, e medicina dentária. Para além destas valências, os profissionais da USSC organizam caminhadas, usufruindo da proximidade com o Parque Florestal do Monsanto e de sessões mensais de educação para a saúde.

Laços de confiança

Anabela Santos é a enfermeira-chefe da unidade e membro do conselho técnico. Explica que a equipa tem “trabalhado com a população e esta tem aderido muito bem”, adiantando que uma boa parte da população que recorre a este serviço sofre de hipertensão e/ou diabetes, pelo que é feita uma “aposta na prevenção da saúde”.

Para a enfermeira, o facto de esta unidade estar junto da população garante uma maior proximidade: “quando as pessoas têm algum problema vêm ter connosco, conversam. Estar a trabalhar dentro do bairro permite uma grande ligação entre os moradores e as pessoas que trabalham aqui. Criam-se laços, também porque os técnicos estão sempre abertos para qualquer coisa. Sentem confiança e quando a população confia nas pessoas que cuidam dela, adere muito mais” às iniciativas que lhes são propostas.

André Brandão de Almeida, médico dentista na USSC Liberdade também nota “que as pessoas confiam em nós”. Para este profissional, o facto de uma especialidade como a medicina dentária ser gratuitamente oferecida a esta população poderia gerar alguma desconfiança, algo que não acontece, acredita, porque “é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a prestar este serviço, uma instituição com grande credibilidade e que gera confiança nas pessoas”.

A medicina dentária é uma das mais-valias desta unidade. Esta especialidade não faz parte do SNS, e os custos elevados de consultas e tratamentos em consultórios privados são proibitivos para muitas pessoas. André Brandão de Almeida sente que a ausência da medicina dentária do SNS levou a que “a maior parte da população não tenha a cultura de recorrer a tratamentos de saúde oral”, só o fazendo em casos extremos e quando pode pagar.

O médico dentista defende que “o estado da saúde oral produz efeitos significativos na qualidade de vida das pessoas e tem muitas vezes repercussões físicas, psíquicas e sociais”. Este é um problema que afeta adultos e também crianças, que quando têm problemas dentários “se inibem de sorrir” e isso tem repercussões no seu desenvolvimento, sublinha André Brandão de Almeida.

Sobre a unidade, André Brandão de Almeida considera que tem um conceito de proximidade “muito próprio, como acontece noutras unidades da Santa Casa”, algo que é positivo. Ao contrário do que acontece nos consultórios privados, a medicina dentária está num serviço integrado com outras especialidades, o que “é bom porque não há saúde geral sem saúde oral”, considera.

Noutro gabinete, originalmente pensado para sala de reuniões, uma das duas assistentes sociais que dois dias por semana se deslocam à USSC Liberdade para o atendimento, aguarda pelo próximo utente.

Antes de sairmos, Alexandre Zacarias insiste para que espreitemos o gabinete de saúde infantil. Quando entramos, percebemos a insistência. O espaço está decorado com muito gosto e com a garantia de que as crianças se sentem o mais confortáveis possível quando por aqui passam.

À porta, a prepararmo-nos para a fotografia de grupo com toda a equipa da unidade, cruzamo-nos com o jovem utente que já não está tão envergonhado, nem ansioso. O veredito foi positivo, pode ir à piscina.


22 de agosto de 2016


Reportagem Fotográfica de Margarida Carriço

Texto de Paulo Rosa