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Nascer e Crescer na Misericórdia de Almeirim

Com o apoio do Fundo Rainha D. Leonor, o antigo hospital da Misericórdia de Almeirim, onde nasceram muitos almeirinenses, serve agora para educar as futuras gerações. Fomos conhecer a nova creche e jardim de infância da Misericórdia de Almeirim.

O Colégio Conde de Sobral, inaugurado a 24 de fevereiro, foi a segunda obra a ser concluída com o apoio do Fundo Rainha D. Leonor (FRDL), criado em parceria pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e pela União das Misericórdias Portuguesas (UMP), para ajudar obras das Misericórdias em todo o país. 

A ajuda do Fundo (221 000 euros) possibilitou a reconversão do antigo hospital em creche e jardim de infância, com capacidade para 249 utentes, 99 bebés e 150 crianças.

José Lobo Vasconcelos, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim (SCMA), recebeu-nos no Colégio e falou sobre a instituição que administra, os projetos e o Fundo Rainha D. Leonor. Fundada em 1948, esta instituição é uma das cerca de 400 Misericórdias que trabalha em prol dos mais necessitados.

A Misericórdia de Almeirim confunde-se com a história da família de José Lobo Vasconcelos. “Quem é filho de peixe sabe nadar”, diz o povo. Ou melhor, neste caso, quem é filho e irmão de peixe, sabe nadar, já que os anteriores provedores, o primeiro e o segundo, foram o seu pai e irmão. Em 2013, José Vasconcelos, irmão número dois, da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim foi eleito provedor, sendo o terceiro desde a fundação da instituição. 

“Ser provedor é uma missão a tempo inteiro”, diz José Lobo. Mas além desta obra, sublinha, tem ainda outras ambições: “O Centro de Formação e Recuperação de Idosos e a requalificação da Praça de Touros com a criação de 16 espaços comerciais”.

Com cerca de 130 colaboradores, a Misericórdia de Almeirim contabiliza atualmente 270 crianças e 137 idosos. A instituição tem ainda inúmeros projetos de responsabilidade social e dispõe de equipamentos nas áreas da Saúde, Educação, Comunicação Social e Tauromaquia.

“Durante muitos anos, o hospital de Almeirim foi uma maternidade com muito sucesso”, conta o anfitrião, José Vasconcelos. Para esse efeito, foi alojada uma comunidade de irmãs que tratava de doentes e parturientes.

O provedor recorda que o “propósito inicial da SCMA foi abrir um hospital”, funcionando neste local durante muitos anos, até o Sistema Nacional de Saúde (SNS) se substituir à maior parte dos hospitais particulares do país.

“A camada ativa de Almeirim nasceu aqui”, observa o provedor, realçando que esse facto “tem um significado forte e sentimental”. Porque são essas pessoas que têm, atualmente, crianças a serem educadas nas instalações onde nasceram.

O principal motivo deste projeto de recuperação do antigo hospital de Almeirim foi o “estado de degradação avançado” em que se encontravam as suas instalações, justificou José Lobo de Vasconcelos. 


A origem e o papel das Misericórdias

A história das Misericórdias em Portugal começa em 1498, quando a primeira, a Misericórdia de Lisboa, foi fundada pela rainha D. Leonor. As outras foram criadas por impulso do rei D. Manuel I e congregação de vontades das gentes de cada localidade. A expansão das Misericórdias por todo o reino inseriu-se num esforço da Coroa em organizar a assistência aos mais necessitados. 

As Misericórdias Portuguesas sempre desempenharam um papel decisivo no apoio aos setores mais frágeis da nossa população, tornando-se mais evidente neste tempo de crise, onde são chamadas a um esforço extraordinário para dar respostas às solicitações. 

De hospital a creche e jardim de infância

O Colégio Conde do Sobral “é uma obra com todo o significado”, defende o provedor da SCMA, referindo que, substituir três núcleos de infância por um só local, “tem enormes vantagens”, com melhores condições de serviço e economia de escala.

O anfitrião sublinha as “condições deploráveis” em que se encontrava o antigo hospital. Este projeto permitiu levantar a fachada e a dignidade de um edifício emblemático para a população de Almeirim.

“É uma felicidade enorme poder devolver a estas instalações uma utilidade prática e muito necessária para a população. No fundo, o nosso propósito primeiro é servir a população local”, considera José Lobo Vasconcelos.


O Fundo Rainha D. Leonor e as Misericórdias

“Algumas das Santas Casas que existem pelo país fora terão algumas receitas, outras não têm tantas facilidades. É o nosso caso, somos uma Santa Casa que não tem muitos anos e as receitas são limitadas, são receitas que vêm das nossas atividades e da nossa gestão que pretendemos ser cuidada, mas não temos excedentes”, afirma o provedor.

“Uma nobreza de pensamento muito grande”, são as palavras de José Lobo Vasconcelos para classificar a primeira vez que ouviu Pedro Santana Lopes, provedor da SCML, falar na intenção de ajudar as outras Misericórdias com a criação de um fundo, frisando que “é fácil estar em Lisboa, gerir muitos fundos e não se preocupar com o resto do país”.

O irmão número dois da Misericórdia de Almeirim reforça ainda que as instituições apoiadas pelo FRDL têm muitas semelhanças com a Misericórdia de Lisboa, mas não a mesma disponibilidade financeira. “Distribuir lucro de um negócio que é nacional por projetos que são interessantes e úteis para as outras Santa Casas, parece-me não só nobre como uma justiça moral”.

Na inauguração do Colégio, “a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa voluntariou-se generosamente para nos ajudar nos arranjos exteriores”, contou ainda o provedor da SCMA, referindo-se à construção de um parque de recreio para as crianças.

“É um prémio fantástico ter aqui [no colégio] estas crianças felizes e sobretudo poder colaborar com as suas famílias na sua formação”, diz José Lobo Vasconcelos, acrescentando que o FRDL deu uma “ajuda fantástica”, porque retirou a preocupação financeira e possibilitou “terminar a obra”.

Quando Joana de Mello, diretora pedagógica do Colégio, entrou pela primeira vez nas novas instalações de apoio à infância da SCMA, exclamou: “Uau! A luz natural é mesmo fantástica”.

“A expetativa era muita”, diz, acrescentando que se conseguiu um “espaço mais alargado e contacto entre as diferentes salas”. Na opinião de Joana de Mello, os benefícios desta obra são “mais qualidade, conforto e centralidade”.

Em forma de balanço geral das novas instalações, a diretora pedagógica lembra que são as crianças as mais beneficiadas, mas são os pais que mostram mais contentamento. “Temos pais que nasceram aqui. Que nos dizem: Eu nasci no antigo hospital, e agora o meu filho vai crescer onde eu nasci”.

Saiba mais sobre o Fundo Rainha D. Leonor


3 de junho de 2016


Texto: José Diogo dos Santos

Foto: João David