Vencedores dos Prémios SANTA CASA Neurociências 2015
Santa Casa atribui prémio de 400 mil euros para investigação científica
Vencedores dos Prémios SANTA CASA Neurociências 2015

Estudar o potencial da retina como espelho das alterações cerebrais na Doença de Alzheimer através de um modelo animal e humano, e o desenvolvimento de uma nova estratégia terapêutica para melhorar a recuperação de lesões medulares são os objetivos dos dois projetos vencedores dos Prémios Santa Casa Neurociências 2015, anunciados hoje em Lisboa, pelo Provedor da SCML, Pedro Santana Lopes.

O Prémio Melo e Castro 2015 é entregue a Ana Pêgo (investigadora responsável) e à sua equipa do Instituto Nacional de Engenharia Biomédica, pelo projeto "COMBINE - Estratégia regenerativa combinatória para potenciar a regeneração axonal e melhorar a recuperação funcional depois de lesão medular"

O investigador António Ambrósio e a sua equipa, da Universidade de Coimbra, são distinguidos com o Prémio Mantero Belard 2015, pelo projeto sobre "Alterações cerebrais na doença de Alzheimer: a retina como um espelho do início e progressão da doença?" 

Atribuídos pelo terceiro ano consecutivo, os Prémios Santa Casa Neurociências voltam a apostar na investigação científica nacional. Os dois galardões, de 200 mil euros cada, surgiram em 2013, por iniciativa do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Pedro Santana Lopes, para promover avanços nos cuidados de saúde em áreas prioritárias da instituição e para a sociedade atual: o Prémio Melo e Castro, para a recuperação e tratamento de lesões vertebro-medulares, território em que Santa Casa foi já pioneira no país, em 1966, com a abertura do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão; e o Prémio Mantero Belard, para o tratamento de doenças neurodegenerativas associadas ao envelhecimento. 

Os grandes vencedores foram escolhidos por um júri presidido por Catarina Resende Oliveira, da Universidade de Coimbra, num concurso que reuniu 202 investigadores de diversas nacionalidades.

Do Júri deste ano fizeram também parte Alexandre de Mendonça (Sociedade Portuguesa de Neurologia), Catarina Aguiar Branco (Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação), José Ferro (Universidade de Lisboa), Nuno Sousa (Sociedade Portuguesa de Neurociências), e Maria João Saraiva (Universidade do Porto). O júri  integra também elementos internacionais de renome, como George Perry (College of Sciences, Univ. Texas), Grégoire Courtine (Swiss Federal Institute of Technologye) e Thomas Gasser (EU Joint Programme - Neurodegenerative Diseases Research).
Através da criação das maiores bolsas para projetos em Neurociências desenvolvidos em Portugal, a Santa Casa começou, pela primeira vez na sua história, a investir diretamente na investigação científica e médica de excelência. Através destes Prémios - que se constituem como uma prova de confiança na investigação científica nacional e na qualidade dos cientistas portugueses - a Santa Casa acredita estar a contribuir de forma significativa para um futuro melhor.

Os Prémios Santa Casa Neurociências têm como parceiros científicos a Universidade de Lisboa, a Universidade do Porto e a Universidade de Coimbra, bem como a Sociedade Portuguesa de Neurociências, a Sociedade Portuguesa de Neurologia e a Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação.

Sobre os Prémios Santa Casa Neurociências 

Criados em 2013, os Prémios Santa Casa Neurociências representam um investimento anual de 400 mil euros em investigação científica, na área das neurociências. Anualmente, o Prémio Melo e Castro atribui 200 mil euros ao projeto de investigação clínica ou científica com maior potencial para encontrar novas respostas na recuperação e tratamento de lesões vertebro-medulares. O Prémio Mantero Belard entrega 200 mil euros ao melhor projeto de investigação, clínica ou científica, capaz de potenciar contribuições estratégicas e significativas na compreensão das causas, prevenção e tratamento de doenças neurodegenerativas associadas ao envelhecimento, como a doença de Parkinson e de a doença de Alzheimer. 

2 de dezembro de 2015


PRÉMIO MELO E CASTRO 2015

Projeto: COMBINE - Estratégia regenerativa combinatória para potenciar a regeneração axonal e melhorar a recuperação funcional depois de lesão medular
Autores: Ana Paula Gomes Moreira Pêgo (investigadora principal) e equipa
Instituição: Instituto Nacional de Engenharia Biomédica, Porto

Descrição 

O insucesso da regeneração axonal após uma lesão medular (LM) é consequência da incapacidade intrínseca dos axónios afetados ativarem uma cascata de processos pró-regenerativos e do ambiente altamente inibidor da cicatriz glial.

Aqui propomos uma nova estratégia terapêutica pensada para atingir ambos os braços deste processo, que será combinada com um programa de reabilitação. Dois inibidores potentes da regeneração axonal - PTEN (homólogo da fosfatase e tensina) e HDAC-6 (histona deactylase 6) - foram selecionados para serem inibidos usando nanoestruturas à base de ácidos nucleicos (nanocages) que exploram os fenómenos de RNA de interferência. No caso de HDAC-6, um inibidor específico aprovado pela FDA também será explorado. Adicionalmente, o local da lesão será preenchido por um hidrogel de fibrina que para além de servir de veículo para as nanocages promoverá o crescimento axonal. 

O sistema proposto será testado num modelo de LM clinicamente relevante em combinação com um protocolo de reabilitação concebido à semelhança dos atuais programas de reabilitação em prática clínica. A estratégia proposta que tendo em conta a complexidade de uma LM, visa promover a reparação e recuperação funcional da medula, foi cuidadosamente desenhada para ser implementada na clínica. 

Dado o aspeto combinatório do projeto que se baseia na premissa de que um tratamento ideal para as LMs tem de neutralizar tanto o ambiente inibitório da cicatriz glial como promover a capacidade limitada dos neurónios para regenerar, a equipa está confiante de que irá atingir um resultado positivo com elevado impacto na melhoria da qualidade de vida dos lesionados medulares.


PRÉMIO MANTERO BELARD 2015

Projeto: Alterações cerebrais na doença de Alzheimer: a retina como um espelho do início e progressão da doença?
Autores: António Ambrósio (investigador principal) e equipa
Instituição: Universidade de Coimbra

Descrição 

A doença de Alzheimer (DA) é a principal causa de demência. O diagnóstico e monitorização da patologia requerem a utilização de métodos invasivos, onerosos, e de sensibilidade reduzida. A DA tem início anos antes dos primeiros sintomas clínicos, pelo que o diagnóstico precoce, recorrendo a biomarcadores de confiança, é da maior importância. 

Alterações visuais são frequentes nos doentes com DA e podem ocorrer antes do diagnóstico. Apesar de alguma controvérsia, estudos mostram que a retina é afetada pela DA. Estudos mais recentes em modelos transgénicos de DA corroboram a existência de alterações na retina, evidenciando o conceito da retina como uma janela para o cérebro. A retina pode ser analisada com técnicas não invasivas, o que oferece vantagens em termos de diagnóstico e avaliação da progressão da DA, além de permitir identificar biomarcadores mais fiáveis. 

O conceito  de retina como janela para o cérebro é de grande potencial, mas com várias lacunas pois a maioria dos estudos foca exclusivamente o cérebro ou a retina e não ambas as estruturas em paralelo, e várias questões permanecem por responder, nomeadamente: Quando aparecem as primeiras alterações na retina e no cérebro? Que alterações surgem primeiro? Que regiões são primariamente afetadas e em que extensão? Qual a progressão das alterações em diferentes regiões? Existe correlação entre alterações da retina e de diferentes regiões do cérebro? 

Relações causais e interdependências mecanísticas permanecem por esclarecer, pelo que nos propomos responder a estas questões, clarificando se a retina pode, de facto, espelhar as alterações que ocorrem num cérebro com DA. Para atingir estes objetivos, propomo-nos desenvolver um estudo integrativo e longitudinal, em que se usará um modelo animal de DA (3xTg-AD, triplo transgénico) e doentes com DA.

Avaliaremos, in vivo, em animais transgénicos e em controlos (aos 4, 8, 12, e 16 meses de idade, alterações estruturais, funcionais e biológicas (nível celular e molecular), na retina e no cérebro. Parâmetros similares serão avaliados em doentes com DA e em pessoas saudáveis de diferentes faixas etárias. Diversas técnicas complementares de imagiologia e electrofisiologia serão aplicadas em paralelo ao cérebro e à retina. Estas técnicas permitem analisar estrutura e função da retina e do cérebro, acumulação de proteína beta-amilóide e neuroinflamação. 

Usaremos novos métodos de classificação desenvolvidos pela equipa de investigação e outros métodos de classificação. A retina e o cérebro de animais transgénicos, e controlos, serão recolhidos para avaliação de um conjunto extenso de marcadores associados à DA. A avaliação morfofuncional será complementada por estudos de comportamento animal em murganhos 3xTg-AD para avaliar aprendizagem e memória. Até à presente data não foi conduzido qualquer estudo semelhante ao proposto. 

O sucesso dos objetivos propostos é garantido por uma equipa multidisciplinar que inclui cientistas de áreas fundamentais e clínicas. A equipa tem vasta experiência nas ciências da visão e neurociências, nomeadamente doenças degenerativas da retina e do cérebro, incluindo a DA. Adicionalmente, os membros da equipa possuem larga experiência em técnicas de imagem, de biologia celular e estudos de comportamento, com publicações na área e acesso total a todo o equipamento necessário para o desenvolvimento do projeto. A ideia de correlacionar alterações patológicas retinianas e cerebrais num estudo longitudinal e integrativo, avaliando inúmeros marcadores, em modelo animal e humanos, é bastante inovadora, e permitirá clarificar o potencial da retina como espelho das alterações cerebrais na DA, e identificar novos biomarcadores, da maior utilidade no diagnóstico da DA, particularmente em estádios iniciais da doença.

Este projeto permitirá obter informação relevante para o melhor conhecimento da fisiopatologia da Doença de Alzheimer e das interligações entre patologia do cérebro e da retina.