Reportagem da Semana
“A vida é boa e bela”
Maria Elisabeth, de 87 anos, mãe de sangue e de alma, por amor ao filho, vai deixar tudo o que juntou à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Conheça a sua história.

Ali para os lados de Campolide, fica a casa de Maria Elisabeth Vasconcelos Horta Penim de Almeida dos Reis, alfacinha de gema, e benemérita da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Chegamos e tocamos à campainha. "Quem é?", ouvimos do outro lado. "Somos da Misericórdia de Lisboa, viemos conversar com a Sr.ª D.ª Maria Elisabeth". "Podem voltar daqui a 15 minutos, que a senhora ainda não está pronta?", perguntou uma das funcionárias, que toma conta da benfeitora. Fomos então a um café, mesmo ali mesmo ao lado.

Na rua, está frio e o inverno quase a chegar. Sol, nem vê-lo. O dia está feio e ameaça chover. Depois de um café e de dois dedos de conversa, insistimos novamente. Desta vez, a porta da casa da benemérita da SCML abriu-se para nos receber. 

Confortavelmente instalada no sofá da sua sala, Maria Elisabeth não aparenta ter 87 anos. Apesar de ter mobilidade reduzida, é bem-disposta, simpática e cortês, encarando a vida com um espírito positivo. Ainda antes de começarmos a conversar, perguntou-nos: "os meninos não querem tomar nada? Um café? Um chá?". Agradecemos a gentileza e abordamos o assunto que nos levara até ali.


Há uns anos, Maria Elisabeth sofreu um acidente. Partiu o colo do fémur e ficou sem força nas pernas, usando o andarilho para se deslocar. Atualmente, pela limitação física e devido à idade, tem três "fiéis escudeiras" que a ajudam nas tarefas domésticas, nos recados e na mobilidade. 

Não tem uma vida faustosa. Faz contas todos os meses, porque as despesas são muitas, mas "sempre tive o suficiente para viver bem, na graça de Deus", conta.

Maria Elisabeth nasceu na rua da Condessa, por cima do Rossio. Diz que tem nome de rainha. Fez um curso de Contabilidade, no Instituto Comercial, mas nunca chegou a trabalhar. "Nunca fiz nada a não ser dona de casa". 

Durante anos cuidou dos seus, até que a idade e a doença a impediram. A vida nem sempre lhe sorriu. 25 anos antes, o marido fora enterrado no dia do seu aniversário. O filho, com 52 anos, é o seu grande amor. Mas, por questões de saúde, está internado na Obra Social do Pousal, propriedade da Misericórdia de Lisboa.

"Tive uma infância e uns pais maravilhosos", diz, orgulhosa, a benemérita. As melhores recordações remontam à mocidade. Fez patinagem, jogou basquetebol, andou de bicicleta e mergulhou nas ondas da Caparica. Era uma mulher à frente do seu tempo, apaixonada pela vida. E, entre o nascer e o pôr-do-sol, todos os minutos eram seus.

Além de ter sido desportista, Maria Elisabeth é uma excelente conversadora e contadora de histórias. Não tardou muito e a mesa estava posta com chá e tarte de maça, com limão. Aceitamos, com gratidão. 

Mulher determinada e dedicada às causas da Igreja, sendo católica e praticante, desloca-se todos os anos a Fátima. Reza pelo filho, por si e por todos.


O filho, João, o seu grande amor e inquietação, tem vários problemas de saúde. "Sofre ataques epiléticos graves e foi operado à cabeça. Está na Obra Social do Pousal, uma instituição maravilhosa", refere, a octogenária. "Vou levar uns presentes para as funcionárias, porque elas é que são as mães do meu filho". 

"Fui sempre muito feliz. Aceitei sempre as coisas boas e as más. Não andei a carpir. Tenho seguido em frente, a vida é boa e bela". Vive para o filho. É ele que a faz estar viva.

Tudo o que faz é para tornar a vida do seu filho o mais "confortável possível". João queria voltar para casa, mas a mãe não tem condições para o tratar. Visita-o duas vezes por mês e, todos os dias, sem exceção, fala com ele.

Escolheu a Misericórdia da capital porque lhe inspira "confiança" e dá-lhe "garantias" que vai olhar pelo seu filho, "no dia em que fechar os olhos".


"Sei que os meus pertences e valores ficam bem entregues ao cuidado da Santa Casa. É uma instituição que ajuda muitas pessoas", salienta.

Maria Elisabeth gosta de ajudar o próximo e participa em vários projetos de solidariedade. Conta com a ajuda da sua sobrinha, Elisabeta, o seu braço direito. Enquanto estiver viva, quer ajudar os familiares e os mais próximos. Ainda assim, não se considera "altruísta". 

"Sonho que Deus continue a olhar para o meu filho", finaliza.

A vontade da benfeitora foi expressa em testamento em 2007, mediante a contrapartida de apoio domiciliário para ambos, e integração do seu filho na Obra Social do Pousal, uma vez que carece de cuidados especializados. Em 2015, fez a doação de uma casa, da qual é usufrutuaria. 

Benemerências

As benemerências têm sido, ao longo dos tempos, uma fonte privilegiada de angariação de fundos que possibilitam o cumprimento da missão da instituição. Graças à boa vontade dos benfeitores, a Santa Casa é atualmente proprietária de um vasto património imobiliário, cultural e artístico. Desde 1498, foram muitos os homens e as mulheres que elegeram a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa como fiel depositária de heranças, donativos e legados. 

Para compreender os beneméritos da Misericórdia de Lisboa, importa percorrer a história da instituição, desde a fundação até aos dias de hoje. 

Para Carla Antas de Almeida, responsável pela Unidade de Benemerências do Departamento de Gestão Imobiliária e Património, "as pessoas procuram-nos e manifestam vontade em deixar os seus bens e valores à Santa Casa porque a consideram uma instituição credível, com caráter perpétuo".

Debaixo do manto da generosidade e do altruísmo dos benfeitores da Misericórdia de Lisboa, há a certeza no de que a sua vontade será escrupulosamente cumprida. E assim as Boas Causas continuam a ser bandeiras.

23 de dezembro de 2016
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