Reportagem da Semana
Cavalgar com o apoio dos Jogos Santa Casa
É na Academia Equestre João Cardiga (AEJC) que alguns dos melhores praticantes portugueses de paradressage, modalidade de equitação adaptada, treinam. Fomos conhecer um pouco mais deste projeto, apoiado pelos Jogos Santa Casa.

Pequim, 2008. Jogos Paraolímpicos. Contra todas as expectativas, Sara Duarte conquista o quinto lugar numa das categorias de paradressage. É a melhor classificação de sempre de Portugal. Com esta vitória, chega assim ao fim aquilo a que presidente da Academia Equestre João Cardiga (AEJC), Maria de Lurdes Cardiga designa como "travessia no deserto". 

O triunfo de Sara, que a cavaleira classifica como "um orgulho enorme que ninguém estava à espera", traz para as luzes da ribalta uma modalidade até então desconhecida. Com o reconhecimento de Sara Duarte e desta academia, onde treina, começam aos poucos a aparecer mais atletas. Sara já não está sozinha. São já sete os atletas que sonham com os jogos paralímpicos Tokyo 2020. Fomos conhecer o local onde os seus sonhos ganham forma que conta, há 4 anos, com o apoio dos Jogos Santa Casa.

Entrar na Academia Equestre João Cardiga é entrar num mundo à parte. Quem passa pelos portões de ferro, mais do que num centro hípico, entra numa aldeia. Uma "aldeia" de casas baixinhas, coloridas e tradicionais, onde as "ruas" estão polvilhadas de material equestre e onde o som de cascos nunca cessa. 

No ar, o cheiro a feno espalhado pela brisa fria alastra-se, enquanto cavaleiros, cavalos e treinadores andam de um lado para o outro. À primeira vista, parece o caos, mas uma observação mais atenta permite perceber que as atividades estão todas ligadas por um único sentimento: a familiaridade. Os sorrisos, a cumplicidade e a brincadeiras entre membros são uma constante. Será esse o segredo para o sucesso dos cavaleiros da Academia?

"O que eu lhes digo é que não há atletas de fim de semana! Têm de vir trabalhar todos os dias, têm de colaborar!", afirma Maria de Lurdes Cardiga. A lição da presidente é reforçada diariamente pelo treinador da equipa de paradressage, João Pedro Cardiga. Definindo-se como "muito terreste", o treinador não gosta de colocar a fasquia demasiado alta, "até porque os atletas sabem que competir no estrangeiro é difícil" e o trabalho é "a longo prazo" alcançado "com vitórias muito pequenas".

Esta maneira de encarar a competição parece já ser transversal a todos os atletas com quem falámos. A campeã Sara Duarte (e campeã é o adjetivo certo, basta ver o seu extenso palmarés) dá o mote; "Em 2020, vamos trabalhar para o primeiro lugar, como é óbvio, mas temos de ter sempre os pés bem assentes no chão". Apesar disso, a amazona admite que "temos nível para estar com eles [os melhores] e conseguirmos um bom resultado." 

A mesma reserva esperançosa define as opiniões dos outros cavaleiros. Todos têm objetivos diferentes para este ano, objetivos realistas, desde ter uma boa prestação no campeonato nacional, qualificações para provas internacionais, a simplesmente treinar melhor o cavalo com que competem. Mas, inevitavelmente os olhos brilham quando mencionamos "Tokyo". "Acho que, se acreditarmos, todas as hipóteses são possíveis, temos é de trabalhar para isso", conta-nos Pedro Félix, de 16 anos, o mais novo dos atletas. Já Constança Claro, é um pouco mais reservada. Diz que o objetivo é "ter as melhores pontuações, para poder sonhar mais além", sem nunca mencionar os Jogos Olímpicos. Quando lhe perguntamos se está a falar de Tokyo, solta uma gargalhada tímida. "Claro!", é a resposta que nos dá ainda, com um sorriso rasgado.

Por sua vez, Inês Alemão Teixeira, de 24 anos, é mais direta. "Tokyo é um sonho que tenho há muito tempo. Gostava muito de ter essa oportunidade, de estar apta para chegar a uma competição desse nível. Se vamos conseguir, não sei, faltam quatro anos, mas espero que sim."

"Temos de ter uma visão de futuro, uma visão do projeto a 4 anos. Sei que há muita coisa que ainda não está como devia", confessa a presidente Maria Lurdes Cardiga, acrescentando que também acredita "que há que ter coragem para arriscar. Porque os Jogos Paralímpicos são o sonho maior. É o meu e é o sonho deles. E eu tenho de ser o motor desse sonho".

Para este objetivo ser possível, o apoio dos Jogos Santa Casa tem sido determinante, admite a responsável. "Não se sonharia com o mesmo. E não estariam sete pessoas a competir. Os Jogos Santa Casa têm sido o pilar desta luta. Sem eles, não seria possível", frisa. 

"O difícil não é estar lá [Jogos Paralímpicos], o difícil é chegar lá." Quem o afirma é João Pedro Cardiga, ciente das dificuldades que o esperam e aos seus atletas. Mas, quando deixamos os portões da Academia para trás, e nos lembramos da confiança e felicidade espelhados nos rostos de todos os atletas, restam-nos poucas dúvidas. A ida ao país do sol nascente pode ainda estar em dúvida. Mas o sonho dos Jogos Paralímpicos já começou a raiar nesta pequena aldeia de Leceia, em Barcarena.

11 de maio de 2017

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