Reportagem da Semana
Cristina, a rainha das medalhas
Cristina Gonçalves, 39 anos, vive na Mouraria, em Lisboa. Pratica boccia desde os 14 anos. Já ganhou bronze, prata e ouro, em campeonatos europeus, mundiais e nos jogos paraolímpicos.

Coleciona medalhas e troféus. Corre o mundo em busca de mais. Não se cansa. É determinada e trabalha arduamente para alcançar os seus objetivos. É descrita como sendo alegre, com muitos amigos e comunicativa.

Cristina gosta do sabor e do ambiente da competição, coisas que só um desportista compreende. Aqueles momentos que antecedem qualquer prática desportiva são um misto de nervos, entusiasmo e emoção. 

As limitações que a tornam “diferente”, aos olhos da sociedade, - dificuldades na coordenação motora - nunca a demoveram. Mal descobriu o boccia, percebeu que tinha encontrado a sua paixão.

Pouco tempo depois de nascer, aos 11 meses, Cristina, foi vítima de uma meningite. Mas nem a paralisia cerebral a impediu de ser campeã paralímpica.

Reaprender a viver

A meningite deixou-lhe sequelas. Quando tinha dois anos, a médica aconselhou a sua mãe a levá-la para o Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian (CRPCCG), da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), para receber melhores cuidados.

Agarram-se ao pouco que tinham e reaprenderam a viver, graças à sua força e ao apoio do Centro. 

Cristina fez tratamentos, terapia ocupacional, fisioterapia e atividades, no equipamento da Misericórdia de Lisboa. A evolução foi notável. Todos os dias dava um passo em frente. E foi nos passos que se concentrou.

A atleta não é caso único. Diariamente, no Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian, dezenas de homens e mulheres treinam, aperfeiçoam a sua técnica, superam-se e esforçam-se por melhorar a sua marca. 

“Foi difícil e demorado”, lembra Cristina, referindo-se ao processo de aquisição de marcha. “Passei da cadeira de rodas para o andarilho e das pirâmides para as canadianas”, conta.

A cada dia, foi ultrapassando obstáculos e fazendo conquistas, com ajuda da mãe e dos profissionais do Centro. 

Durante este período, a atleta paralímpica foi submetida a várias operações para tornar possível a aquisição da marcha.

Cristina diz que só aos 9 anos é que começou a dar os primeiros passos. Antes de jogar boccia, fez algumas modalidades de atletismo. 

Os primeiros passos no boccia

O desporto foi a forma de dar a volta por cima, numa vida que parecia ter um futuro pouco risonho. Cristina sorriu para o desporto e a vida sorriu-lhe de volta, em forma de medalhas, troféus e amigos.

No início, começou tudo devagar. “Ficava muito nervosa, tremia por todos os lados, depois fui evoluindo. A professora Rosa ajudou-me”, conta. Continuava a dar passos e a modalidade começava a entranhar-se na sua vida. 

No boccia, os jogadores são classificados em quatro classes: BC1, BC2, BC3 e BC4. A utente do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian está na classe 2, não podendo receber assistência durante a partida.


Uma campeã

Embora, em Portugal, poucos a conheçam, Cristina Gonçalves já fez içar a bandeira nacional, um pouco por todo o mundo. Aos 39 anos, já ganhou dezenas de medalhas, fruto do seu trabalho.

Em 2003, entrou para a seleção nacional de boccia. Em 2016, nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, subiu ao terceiro lugar no pódio, conquistando uma medalha de bronze por equipas. Já no Open Mundial de Fazza, no Dubai, em 2016, conquistou a medalha de ouro.

A sua primeira grande vitória aconteceu em 2003, na Taça do Mundo de Boccia, na Nova Zelândia. “Foi uma luta constante mas acabámos por ganhar”, lembra. Em equipa ou individualmente, as vitórias somam-se, e Cristina não esconde o “orgulho em representar a pátria”. 

Passa a maior parte dos seus dias no Centro, ocupada com as atividades lúdicas, com os amigos e os treinos. 

“Continuar a treinar e ir a campeonatos durante muitos anos” é o seu grande desejo. “Temos de lutar e nunca desistir daquilo que se quer. Eu sou uma lutadora”, diz, sorridente.

“Em 2004, tentei tirar a carta, conta, entre gargalhadas. Além de continuar a ganhar medalhas, Cristina sonha em encontrar emprego.

O Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian

Tem como missão prestar cuidados a bebés, crianças, adolescentes e adultos com paralisia cerebral e condições neuromotoras limitadas, de modo a tornar a vida do paciente mais confortável, independente e inclusiva. O Centro garante, também, o acesso a serviços e a programas inovadores e de qualidade, graças a uma equipa multidisciplinar.

A Paralisia Cerebral provoca desordens no desenvolvimento do controlo motor e da postura, na sequência de uma lesão não progressiva, aquando do desenvolvimento do sistema nervoso central. A lesão pode ocorrer antes, durante, ou depois do nascimento. Não agrava, não progride, mas causa limitações em termos de atividade.

Boccia

Tem influências do jogo tradicional, a petanca, oriunda das civilizações gregas e romanas, tornando-se uma modalidade paralímpica em 1984, nos jogos de Nova Iorque. Esta é a modalidade principal para atletas portadores de paralisia cerebral.

É um desporto indoor, de precisão, em que são arremessadas bolas de couro, seis azuis e seis vermelhas, para que caiam o mais perto possível de uma bola branca, chamada “jack” ou bola alvo. Nesta prática, é permitido o uso das mãos, dos pés ou de instrumentos de auxílio para atletas com grande comprometimento nos membros superiores e inferiores. A modalidade pode ser disputada individualmente, a pares ou por equipas.

21 de julho de 2017

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