Reportagem da Semana
Descodificar sons, palavras e corações
Aos sete anos, Gustavo batalha para vencer uma perturbação da linguagem, na Unidade de Terapia da Fala do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão. Esta é a sua história.

Palavras como filósofo, carpinteiro e vanguarda eram um bicho-de-sete-cabeças para este menino de sete anos. Trocava a ordem e os sons das palavras. Mas tinha outras dificuldades. Valeram-lhe uma mãe e uma educadora, atentas.

Gustavo é o segundo filho de Sandra Teixeira Rasteiro, de 47 anos, assistente técnica do Centro de Saúde de Cascais.

Na pré-primária, Sandra reparou que Gustavo tinha dificuldades na escrita, não conseguindo distinguir o código escrito do oral. "Fiquei assustada porque desconhecia esta realidade", conta. 

Na altura, a médica de família tranquilizou a mãe do menino, explicando que o Gustavo desenhava bem as letras. Foi, entretanto, encaminhado para o Hospital de Cascais, sendo depois acompanhado no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Ter dificuldades em ler, escrever ou falar é frequente, mas há situações que precisam da ajuda de profissionais.
Nos mais pequenos, as dificuldades manifestam-se na leitura, na articulação de palavras e na troca de sons durante a aprendizagem do vocabulário. Foi o que aconteceu com o Gustavo.

Consulta de avaliação

A primeira consulta de avaliação decorreu na Unidade de Terapia da Fala do CMRA. Traçou-se, depois, um programa de acompanhamento, tendo em conta as necessidades da criança.

O menino de sete anos começou a frequentar a Terapia da Fala duas vezes por semana. O momento em que entrou para a Terapia da Fala foi "perfeito", afirmou a assistente técnica.

Frequentar a Terapia da Fala e o Ensino Básico em simultâneo foi o que permitiu ao Gustavo encontrar as ferramentas para contrariar as dificuldades, numa estratégia conjunta entre terapeuta da fala, família e escola.

"Foi sem dúvida a melhor opção", adianta Sandra. Desde que o Gustavo começou a frequentar a terapia da fala, "melhorou bastante". 

Enquanto decorre a terapia, o Gustavo e a terapeuta conversam muito. É uma forma de fortalecerem laços, estabelecerem confiança e de se perceber qual o grau de dificuldades. 

A determinada altura, Rita, terapeuta da fala, perguntou:

- "Tens namorada?"

- "Só vigiar", respondeu o Gustavo.

O menino não soube exprimir-se. O que quis dizer com a sua resposta foi que andava só a ver as vistas.

O miúdo

De camisola verde, meio envergonhado e com um sorriso maroto, Gustavo conta que gosta de pintar motas, carros e camiões dos bombeiros e do SL Benfica.

"Não gosto muito de ler", diz, enquanto coça a cabeça. 

Apesar dos seus sete anos, tem muita força de vontade e quer ultrapassar todos os obstáculos. "Atiro todos os lápis para o chão quando não consigo ler ou escrever", confessa. Felizmente que esta atitude é rara. 

A terapeuta da fala

Gracinda Valido, 61 anos, é terapeuta da fala há 38 anos. Estudou na Escola de Medicina Física e Reabilitação do Alcoitão, atual Escola Superior de Saúde do Alcoitão. A intenção inicial era estudar Fisioterapia mas, quando conheceu a Terapia da Fala, foi "amor à primeira vista".


O que queria ser quando era da idade do Gustavo? "Queria ser professora. Não ando muito longe", responde Gracinda, sorridente. "Gosto muito de trabalhar com crianças com dificuldades", conta. Para a terapeuta da fala, "deve haver uma avaliação sempre que a criança apresentar sinais de alerta". 

Há sinais que podem ser preditivos de uma perturbação da linguagem (oral e escrita), tais como: dizer as palavras mais tarde do que o previsto para a idade; trocar iniciais nas palavras (ex.: bota/mota); fazer frases curtas e/ou desorganizadas; ter dificuldade em lembrar-se dos nomes das coisas, manter um tema e conversa ou produzir histórias, lengalengas e canções, etc.

O tipo de terapia que se aplica a cada caso "depende da perturbação da linguagem que a criança apresente", diz a terapeuta, acrescentando que se deve promover a linguagem tanto em casa, como na escola.

A Unidade

Integrada no Serviço de Reabilitação Pediátrica e Desenvolvimento do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, a Unidade da Terapia da Fala apoia crianças e jovens com um perfil de linguagem específico, nas várias competências linguísticas e de dislexia, recebendo cerca de 130 crianças por mês.

São consultas individuais ou em grupo, com uma duração de 30 a 45 minutos e que acontecem pelo menos duas vezes por semana.

18 de agosto de 2017
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