Reportagem da Semana
Fotografias com história
Teresa Gonçalves já correu todos os cantos da Misericórdia de Lisboa de máquina em riste. Não há creche, lar, centro de dia ou hospital que não conheça. Entrou para a instituição há 43 anos. Esta é a sua história.

Nasceu em Lisboa, na freguesia da Lapa, há 65 anos. O pai, militar, cedo lhe incutiu o gosto pela arte (pintura e desenho). Daí, ter ido estudar para a Escola António Arroio.

Teresa confunde-se com a Santa Casa Misericórdia de Lisboa (SCML). Afinal de contas, são mais de quatro décadas ao serviço das Boas Causas. São muitas as histórias e as experiências vividas.

Em 1973, no ano em que Teresa entrou para a Santa Casa, o Sport Lisboa e Benfica sagrou-se tricampeão, o semanário Expresso foi fundado por Francisco Pinto Balsemão, e a Olá lançou o Epá, um simples gelado de nata, com uma pastilha elástica no final, que fazia as delícias da garotada.

De lá para cá, tudo mudou. No dia 25 de abril de 1974, deu-se a revolução dos cravos. Em 1986, Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia  (CEE) e, em 2002, ao Euro. 

Passou por várias administrações e perdeu a conta às chefias. Foi animadora sociocultural, montou e decorou stands, fez parte do primeiro gabinete audiovisual. Atualmente, Teresa é fotógrafa na Direção de Comunicação da SCML.

Pelas funções que desempenha, acaba por conhecer bastante bem a realidade e a extensão das áreas de intervenção da instituição. É provavelmente uma das colaboradoras mais conhecidas da Misericórdia de Lisboa. 

Com a máquina fotográfica a tiracolo, calcorreia, diariamente, os lares, os centros de dia as creches, os hospitais, os centros de reabilitação, as igrejas e o património da SCML.

Realidades desconhecidas

Em 1973, Teresa começou a trabalhar como animadora sociocultural. "Descobri uma realidade da cidade de Lisboa e do país que desconhecia", recorda. Foi para a Musgueira Norte, um dos bairros de lata onde a Santa Casa atuava.

"Eu não sabia que havia tanta pobreza e necessidade", adianta, frisando que "havia muita mortalidade infantil".

Era muita informação para Teresa. Esta realidade não tinha nada a ver com a sua. "Eu era apenas uma miúda. Foi um choque para mim", sublinhando que descobriu que gostava de trabalhar a ajudar pessoas.

"O que mais me surpreendeu foi a falta de dignidade da vida destas pessoas", diz, lembrando o trabalho fundamental da Misericórdia nas áreas da ação social e da saúde, na cidade de Lisboa.

A fotógrafa diz que há uma "enorme diferença" entre a Santa Casa de hoje e de há 43 anos. "Em 43 anos tudo mudou. Não há comparação possível entre 1973 e 2017".

Para Teresa Gonçalves "as atividades lúdicas, recreativas e criativas contribuíam para desenvolvimento cultural, social e pessoal das comunidades. Foi um pulo enorme da instituição".


Outras necessidades, outras respostas

"Hoje, as respostas sociais são outras porque as necessidades também são outras", salienta, lembrando que "naquele tempo a grande preocupação eram as crianças". 

"As respostas eram centradas nas crianças. Não havia tantos idosos como atualmente", conta.

Teresa Gonçalves considera que "a Santa Casa está diferente. É mais aberta. Tem mais respostas. Tenta chegar a todo o lado".

Mas não fica por aqui, destacando a obra do Palácio de Marquês do Alegrete, o primeiro lar para os apresentados da SCML e espaço intergeracional. "Era algo que fazia falta. É uma obra importante pela filosofia da Misericórdia de Lisboa".

Salienta, igualmente, a importância da construção do Auditório da Santa Casa, no conjunto de São Roque.

Trabalhar na Santa Casa é uma missão? "Tem que ser uma missão", responde Teresa, sem hesitar. "Não há dinheiro que pague a entrega e o empenho diário em prol das Boas Causas. É muito difícil não nos envolvermos".

"Sinto-me uma privilegiada por trabalhar nesta casa. Venho trabalhar com gosto. Estou sempre a aprender. Aqui, viver é aprender uns com os outros. Aprendo com os meus colegas jovens. Há uma troca de conhecimentos entre a geração mais nova e a mais velha", destaca a fotógrafa.

A reforma parece distante. Teresa não quer pousar para já a máquina fotográfica. Ainda se sente capaz de dar o seu contributo. "Mas poderá ser daqui a um ano e tal", antevê.

"Mesmo depois da reforma, a Santa Casa poderá contar sempre comigo", garante.

Enquanto não se reforma, Teresa vai fotografar mais um equipamento da instituição. Até lá, sonha voltar à "sua" Índia.

16 de junho de 2017



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