Reportagem da Semana
Liberdade para voar
Semanalmente, à sexta-feira, contamos-lhe uma história da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A primeira é a do ‘Miguel', um menino de sorriso doce, adotado por um casal de holandeses, que começou uma nova vida de afeto. 

Lembra-se de "Miguel", o menino que enchia uma sala com o seu sorriso? Da Holanda chegaram os pais, que viram nele muito mais do que qualquer problema de saúde.

"Um lindo rapaz, com um grande sorriso...lindo... Quando acorda está a sorrir, está sempre a sorrir...". O discurso, na primeira pessoa, não engana, é mesmo da mãe.

Encontramo-nos com Miguel e os pais, a poucos dias de partirem para casa. O menino, a quem chamamos "Miguel", viu chegar da Holanda um casal que representa a resposta certa para lhe dar o amor e a vida que merece. Em Portugal, não encontrou família e a adoção internacional foi a solução para uma criança, com sérios problemas de saúde associados ao facto de ter nascido muito prematuro.

Voltemos no tempo. Para os pais, cuja identidade vamos preservar, esta viagem começou em janeiro de 2013. "Foi a primeira vez que fizemos a candidatura, o princípio do processo", conta a mãe. 

A maior parte dos países para onde vão crianças portuguesas adotadas, praticamente não têm adoção nacional, como são os casos da Itália, França, Bélgica e Holanda. Os pais passam por procedimentos semelhantes aos que se fazem em Portugal para selecionar e preparar os candidatos.

Uma boa preparação é fundamental para a integração da criança na família. Tal como na adoção nacional, tudo é preparado ao detalhe. Madalena Neves, assistente social na Unidade de Adoção, Apadrinhamento Civil e Acolhimento Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) considera que a "agência holandesa (que acompanha a família nesse país) prepara muito bem as famílias, vêm com tudo muito esquematizado, querem conhecer o máximo possível".

Quando a pesquisa internacional encontrou estes pais, os serviços portugueses e holandeses começaram a trocar informação sobre a família e a situação do menino. A articulação foi feita entre a equipa da Santa Casa e a Autoridade Central, o Instituto de Segurança Social e a agência holandesa.

Madalena Neves sintetiza o processo: "o lar onde a criança estava preparou um álbum com as suas fotografias, um pequeno texto sobre os seus gostos, hábitos e rotinas. O mesmo aconteceu do outro lado, o casal preparou um álbum com fotografias da casa, com os seus gostos, para que o "Miguel" fosse preparado para a chegada dos pais".

Sandra Costa Silva que, com Madalena, compõe a equipa que gere o processo, explica que se guardam "sempre os álbuns nos processos, um dia mais tarde a família ou a criança podem consultá-lo". A psicóloga conta que "as famílias têm tido o cuidado de acrescentar fotografias dos progenitores, quando há", para que, quando a criança crescer, possa conhecer o seu passado.

Um processo preparado ao pormenor dá mais garantias de sucesso

Isabel Pastor, diretora da unidade de adoção da SCML explica que, talvez por estes processos serem preparados ao pormenor, "a taxa de sucesso é muito grande", uma vez que as crianças, depois de acolhidas pela nova família, manifestam um desenvolvimento significativo.

A responsável pela unidade de adoção tem uma vasta experiência na Autoridade Central para a Adoção Internacional. Recorda o exemplo de uma criança que foi para Itália "com um rótulo de grande atraso de desenvolvimento global". Ao fim de um ano, o relatório não trazia "qualquer referência a atraso de desenvolvimento, ou seja, não era efetivamente uma deficiência cognitiva mas, simplesmente, falta de estimulação e pouca motivação que a criança tinha para se desenvolver, fruto da sua vida".

Isabel Pastor considera que esta medida representa, para algumas crianças, "a última hipótese de viver em família", notando que "as crianças que não encontram candidatos em Portugal só têm a beneficiar com a adoção internacional".

Voltamos ao presente. O pai, mais reservado, pouco fala. Não domina o inglês. Prefere acompanhar a conversa, enquanto o filho brinca na sala. Atento, olha para a companheira, confiante no que ela nos diz. A cumplicidade é notória. A confiança e a descontração com que lidam com o menino transmite a ideia de que são pais desde sempre.

Chegaram a Portugal cerca de seis semanas antes deste encontro. Uma reunião matinal juntou a família, a equipa de adoção, a autoridade central, a equipa que acompanhava o menino no lar e a tradutora, que desempenha um papel fundamental.

Neste momento afinam-se agulhas, toda a preparação foi feita antes. O encontro serve, fundamentalmente, para esclarecer dúvidas de última hora e para acertar pormenores do primeiro encontro entre pais e filho.


"Uau, que lindo rapaz!"

Sandra Costa Silva defende que o primeiro encontro é um "momento muito interessante" e "a registar". E continua descrevendo como se passou: "estavam sentados no sofá, antes de o ‘Miguel' entrar, sentaram-se no chão para a distância física ser menor, a educadora entrou com a criança na sala e, naturalmente, o "Miguel" foi-se movendo e aproximando do casal". 

Quando viu o filho pela primeira vez, a mãe apenas conseguiu soltar um "uau, que lindo rapaz!". Considera que "o primeiro encontro correu muito bem, ficámos sem palavras quando vimos o ‘Miguel' pela primeira vez".

Sandra diz que, devagar, "a família foi-se aproximou-se fisicamente e o ‘Miguel' foi deixando. Depois de sentir o menino seguro, a educadora foi saindo "aos poucos". Para a psicóloga, nesta e noutras adoções internacionais que acompanhou, "a língua não constitui uma barreira porque o afeto e a partilha não-verbal" são suficientes, numa primeira fase.

A educadora I., que até esse momento era a figura de referência para o menino, tem de se afastar gradualmente, enquanto a família faz o processo inverso, para que a ligação afetiva que Miguel tinha perante I. passe, de forma natural, para o casal.

A integração é feita de forma progressiva. A primeira fase dura alguns dias, os pais vão visitando o menino no espaço onde vive, vão passando cada vez mais tempo com ele, saindo os três, até ao dia em que a criança sai do lar para a casa, ainda em Portugal, onde passa a estar sozinho com os pais.

Ao receber a mala com a roupa de Miguel, a mãe fica boquiaberta e sensibilizada com o cuidado com que a educadora preparara as suas coisas. "A I. pôs as roupas muito arrumadas na mala, como se fosse mãe dele. Foi muito simpático ver isso".

Quando vieram para Portugal, a mãe não imaginava "que fosse tão fácil". Para isso, contribuiu a forma atenciosa como os profissionais dos hospitais e da Santa Casa lidaram com a família, sublinha, dando, emocionada, um exemplo: "Ficámos sem palavras quando vimos numa caixinha as coisas do ‘Miguel', o seu primeiro cabelo, a chucha, a primeira roupa, tudo arrumado cuidadosamente. Fotos do seu primeiro Natal, do primeiro aniversário... Uma mãe não conseguiria fazer melhor".

Para I. vão os maiores elogios: "ela foi muito atenciosa com ele e connosco. Fez-nos muito bem, deixou-nos estar com ele, afastava-se, confiava em nós. Ele é um menino muito amoroso, entregá-lo não devia ser fácil. É como se fosse mãe dele".

Enquanto permanecem no nosso país, os pais contactam com a equipa de adoção, que está disponível para ajudar, seja para os acompanhar às consultas ou para tratar de tudo o que for necessário durante a estada. Isabel Pastor explica que este acompanhamento prolonga-se até ao momento em que "se dá liberdade para voar".


O tempo certo

O processo de integração correu da melhor forma. Madalena Neves sublinha que é "como se fossem pais desde sempre" e não se pode pedir mais. Para uma integração bem-sucedida, como é o caso, contribuiu a forma como os pais se apresentaram: "a grande motivação que estes casais trazem torna-os muito disponíveis e espontâneos. Para eles, nada é obstáculo e as necessidades das crianças estão sempre em primeiro lugar, sobrepõem-se a tudo". 

Mais de seis semanas num país estrangeiro, com uma língua diferente, pode parecer muito tempo. Para os pais, contudo, este foi o necessário para tratarem de todo o processo, inteirarem-se da situação clínica do menino, perceberem todos os cuidados a ter para a melhor assistência possível e para que Miguel que se consiga despedir aos poucos do seu país.

Os pais esperam "um dia voltar a Portugal, para lhe mostrar tudo da sua terra natal". A mãe descreve este período como "muito entusiasmante" mas agora, estão ansiosos por voltar para casa.

Parte da família já conheceu o ‘Miguel' pessoalmente. Depois de conversarem pelo Skype, os avós maternos fizeram uma visita a Portugal. Em pleno aeroporto, no meio de muita gente, Miguel viu o avô pela primeira vez e reconheceu-o. "Opa" (avô), gritou a plenos pulmões o pequeno Miguel, conta a mãe divertida e com uma ponta de orgulho que não disfarça.

Já com o documento do tribunal, que permite aos pais viajarem para casa com a família completa, contam-se os dias para o voo. Aproveitam, entretanto, para conhecerem um pouco mais de Lisboa. Terminamos o nosso encontro no Miradouro de São Pedro de Alcântara. 

O sorriso de Miguel não desapareceu mas, no alto dos seus dois anos, o sono não perdoa. É tempo de descansar, com o biberão na mão. Agora, o carrinho que usa vai ser deixado à Misericórdia de Lisboa para que outros meninos o possam usar. Na Holanda está uma família ansiosa por conhecê-lo.

Pedimos que nos digam, numa palavra, o que lhes vai na alma. A mãe olha para o pai, que nem assim se descai. Diz-nos que antes desta conversa lhe tinha perguntado o mesmo. A palavra é só uma, o sentimento diz tudo. "Grato!".

Leia ou releia o princípio desta viagem em www.scml.pt/pt-PT/destaques/quem__nao__quer_este_sorriso_/ e saiba mais sobre adoção internacional e as casas de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

21 de outubro de 2016

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