Reportagem da Semana
Mães de Coração
Já criaram os filhos e, em alguns casos, os netos. Dedicam parte da sua vida a cuidar dos rebentos de outras mães. Conheça o retrato das amas da Misericórdia de Lisboa.

Ser mãe é uma instituição sagrada. Lembro-me dos jogos de futebol na infância. Valia tudo: carrinhos por trás, caneladas, gozar com o adversário e guerreias épicas. Mas injuriar a mãe, nunca. Fazê-lo era considerado uma ofensa pessoal. Havia um acordo de cavalheiros entre os miúdos que todos respeitavam. 

“Oh minha mãe, minha mãe, oh minha mãe, minha amada, quem tem uma mãe tem tudo, quem não tem mãe não tem nada”, já cantava Zeca Afonso.

A sabedoria popular diz também que “mãe só há uma”. Não é bem assim, na cultura lusitana as mães abundam. Há sempre uma avó ou uma tia que cumprem esse papel, na ausência da mãe.

E depois há as amas. Não, não são mães de sangue, são Mães de Coração. Durante anos, tratam, cuidam, ensinam, contam histórias e mimam os mais pequenos como se da sua família fossem. A casa dela é a casa deles. Se, no momento do encontro há alegria, na separação, tristeza, dizem todas as amas.

São as Mães de Coração…

No primeiro andar numa rua do bairro de Alvalade fica a residência de Clarinda Tostão, de 56 anos, ama da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Desempenha esta função na Santa Casa há cerca de uma década, apesar de já contar com 20 da profissão. Foi também funcionária numa loja de comércio. A certa altura, resolveu dedicar-se à família. Criou os filhos quando eles eram mais pequenos. “Fiz essa opção. Não me arrependo nada”, diz, Clarinda.


Recebe diariamente na sua casa quatro crianças, dos quatro meses aos três anos. Natural de Montalegre, casada, e mãe de três filhos, Clarinda gosta da casa cheia. Os seus filhos cresceram e foram em busca do seu caminho, lamenta. 

Como tem muito amor para dar, ter quatro crianças consigo é uma alegria, além de ser um “sustento”. Emociona-se facilmente a falar dos seus meninos. A voz fica trémula.

A creche familiar tem como vantagem a maior “atenção e mimo” que se dá a cada criança”, defende. No que se refere às amas, a diferença reside na entrega e na disponibilidade emocional. De resto é tudo igual, sejam as brincadeiras, os jogos, as cantigas, a higiene ou a alimentação, diz, Clarinda.

O dia começa às 8h00 e termina às 18h00. Às vezes, um pouco mais tarde. As amas da Santa Casa seguem um plano educativo e são acompanhadas regularmente por uma técnica da Santa Casa, que visita a residência.

Nesta situação, a alimentação é trazida pelos pais, mas é habitual que seja a instituição a fornecer as refeições.

Quando começou a exercer a profissão, tinha algumas dificuldades, ficava “ansiosa” por querer fazer tudo bem. “Com o tempo, aprendemos a fazer a separação entre a vida pessoal e a profissional”.
 
“Constrói-se uma relação afetiva com crianças e pais”, acrescentando que “é muito gratificante vê-los crescer”, sublinha.

“Há coisas que não se explicam, sentem-se”, diz, a mãe de 56 anos.

Um sonho de menina realizado

Do outro lado da cidade, ao pé da Calçada de Carriche, mora Maria Zaida Roque, de 54 anos, ama há cinco anos na Misericórdia de Lisboa. Veio para a capital há 34 anos, quando tinha apenas 20, recorda.

Com dois filhos (de 28 e 30 anos), trabalhou numa empresa que comercializava louças e vidros durante mais de duas décadas. Até que a empresa começou a reduzir pessoal, ficando no desemprego.


Foi numa ida ao Centro de Saúde que viu um anúncio de emprego para ama da Santa Casa e nem queria acreditar. Melhor, era é impossível. Estava a realizar um sonho de menina. “Gosto muito de crianças. Estou a fazer aquilo que não pude seguir”, revela, Zaida.

Não gosta da partida dos pequenos, custa-lhe imenso. “Envolvo-me muito. Já estou a aprender. Tenho que me afastar”, diz, emocionada.

Com a camisola da Santa Casa vestida até à alma, esta mãe de coração tem quatro crianças à sua responsabilidade. “Espero conseguir ser ama até me reformar”, finaliza.

Um amor à primeira vista

Foi a casa mais difícil de encontrar. Fica ali para os lados de Marvila. Com três filhos e seis netos, e 29 anos de experiência com ama, Romana Maria Sousa, de 66 anos, conta que a oportunidade de ser ama surgiu quando recebeu um convite na caixa do correio, onde se lia: “se gosta de crianças, venha trabalhar connosco na Santa Casa”.

“Foi amor à primeira vista”, conta, sorridente.

“Tenho três crianças que fazem parte da família”. É muito fácil perceber quando estão bem ou mal. A experiência é um posto. “Às vezes basta um olhar, para entender o que se passa, refere Romana Sousa.


“Dou-me por inteiro a estas crianças. “É impossível não me envolver. Com a experiência, aprendi a gerir a situação”, sublinhando que mais lhe custa é a separação.

Enquanto conversamos, Romana revela, orgulhosa, que recebe pedidos de amizade no Facebook das crianças de quem tomou conta. 

Simpática e alegre, tem planos para quando se reformar, dentro de dois anos. Vai estudar na Universidade Sénior, no curso de Pintura. “Vou estudar, para não pensar que já não tenho meninos”, desabafa Romana.

Esta resposta social da Misericórdia de Lisboa surgiu em 1987. Atualmente estão ao serviço da instituição 60 amas, apoiando cerca de 300 crianças. 

As Creches Familiares estão sediadas nos estabelecimentos de infância da Santa Casa, com valência de creche, e têm educadores de infância como técnicos de enquadramento, que todos os anos elaboram um programa pedagógico.

De referir, por último, que as amas estão licenciadas de acordo com a legislação em vigor (Decreto-Lei nº 115/2015).


10 de fevereiro de 2017

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