Reportagem da Semana
Mestres e artesãos: a arte de Saber Fazer
Há um local, no coração de Lisboa, onde artífices trabalham peças decorativas que seguem para os quatro cantos do mundo, mantendo vivo um património imaterial de Saber Fazer.

Viajar no elétrico 28, do Martim Moniz aos Prazeres, é um dos roteiros mais procurados pelos turistas em Lisboa, que desejam conhecer a história da cidade. Neste itinerário, há uma história de amor que dura há muitos anos. Está escondida, como se fosse um segredo.

Fica lá para os lados do Largo das Portas do Sol, no coração de Lisboa, num grande edifício. A vista é digna de um postal ilustrado: uma varanda com vista panorâmica sobre Alfama e o Rio Tejo. Quem por ali passa, nem se apercebe das horas infindáveis de carinho que artesãos dedicam aos seus ofícios.

No edifício, o Palácio Azurara, o amor à Arte de Saber Fazer sobreviveu a um novo mundo, um mundo de fábricas automatizadas, robôs e produção em série. É aqui, nas oficinas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS), que artífices mostram o seu amor à Arte como o douramento, pintura, restauro de azulejo, encadernação e mobiliário.

No Largo das Portas do Sol, as 18 oficinas da FRESS reconstroem fragmentos de história. Dezenas de artesãos fazem verdadeiras obras de arte, sejam em madeira, metais, têxteis, papéis e peles, sendo acompanhados por mestres e técnicos de excelência. 

Aos 58 anos, António Almeida é latoeiro artístico numa oficina da Fundação. Alfacinha de gema e adepto do Sport Lisboa e Benfica, já trabalha há 11 anos na instituição. Faz lanternas e candeeiros, a sua paixão.

Durante 16 primaveras, trabalhou na Casa Maciel. Foi serralheiro eletromecânico. Recorda que, na altura, já gostava de latoaria. A sua oficina, sempre aberta, recebe todos os dias turistas curiosos. “São peças únicas, feitas à mão. É um trabalho que já não existe. São raros os que ainda fazem disto vida”, conta António. 


A mão-de-obra especializada e criativa destas oficinas faz parte de um património imaterial português de origem secular que vem desaparecendo mas que Fundação tem procurado preservar.

Na oficina, o espaço é acanhado. A bancada está cheia de ferramentas e utensílios para dar forma às lanternas e candeeiros que seguem para os quatro cantos do mundo. Ivo Ferreira, com 52 anos, é também latoeiro artístico. Está na fundação há menos tempo, mas a paixão por esta arte é a mesma.

Há lanternas e candeeiros que chegam a levar duas ou três semanas a construir. Podem ser em chapa flandres, chapa zincada, latão e cobre. Há modelos pré-definidos e outros feitos por encomenda, sendo o mercado estrangeiro o maior comprador.

Na oficina de passamanaria, Carlos Alberto Rodrigues, 70 anos, transforma tecidos em galões e franjas. Começou neste ofício na Casa Ribeiro, ainda não tinha 14 anos. Com 50 anos de atividade, sete na Fundação, Carlos Alberto diz que “é um trabalho de paciência e gosto”.


Também nesta oficina, o turismo veio despoletar maior procura de peças. Leonor Dias, coordenadora da área, afirma que o produto final “distingue-se por ser feito à mão” e por ser “um trabalho personalizado e de grande qualidade”.

O panorama não é muito diferente, na oficina de cinzelagem. Os colaboradores Beatriz, Jaime e Artur dizem que cinzelar é um trabalho de “gosto e paciência”. Movem-se pela “paixão” que têm ao ofício. Artur Sousa, 57 anos, 43 na Fundação, é o mestre e o responsável pela equipa. Depois de uma vida consagrada a cinzelar, lamenta que a atividade esteja a desaparecer. 

A cinzelagem é uma técnica utilizada para criar volumes, relevos e texturas numa peça de metal, construindo desenhos diversificados. Na oficina, trabalham essencialmente em latão, bronze e prata. Trata-se de um trabalho muito demorado, minucioso e de grande exigência, sendo necessárias ferramentas de precisão, como os cinzéis.


Já Cláudia Gomes, 49 anos, embutidora e responsável pela oficina da área entrou para esta atividade por casualidade. Antes, estudou no Instituto de Artes e Ofícios da Fundação. “Tinha a ideia de fazer restauro”, conta, mas por uma questão de “jeito” acabou por optar pelos embutidos.

Nesta oficina, a estrutura do móvel é revestida de outras madeiras, podendo ser faixeadas, folheadas e embutidas, ou incluir várias destas técnicas. As madeiras usadas são quase sempre exóticas: pau-santo, ébano, pau-rosa, espinheiro, pau-violeta entre outras.


Criada em 1953, a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS) é uma instituição que resulta da doação do Palácio Azurara e de uma coleção de artes decorativas portuguesas. Tem por missão a defesa, a promoção, a divulgação e a transmissão da arte de bem-fazer nas artes decorativas – património móvel e integrado – nas suas vertentes museológicas, académicas, oficinais e de conservação e restauro.

A FRESS inclui, além do Museu, escolas e oficinas de restauro que contemplam artes e ofícios como o douramento, restauro de azulejo, encadernação e mobiliário, desempenhando um papel relevante no contexto cultural da sociedade portuguesa.

O Museu de Artes Decorativas Portuguesas; a Escola Superior de Artes Decorativas (ESAD); o Instituto de Artes e Ofícios (IAO); 18 Oficinas de Artes e Ofícios e o Departamento de Conservação e Restauro são as estruturas em funcionamento da Fundação.

Note-se que a Fundação atravessou nos últimos tempos sérias dificuldades financeiras. Por essa razão, foi assinado, a 6 de maio, um contrato de parceria "para a viabilidade socioeconómica" da FRESS, entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e a referida Fundação.

Para Maria da Conceição Alves Amaral, administradora executiva da FRESS, “a entrada da SCML e do município de Lisboa nos órgãos socias [da Fundação]” são uma garantia institucional para o funcionamento deste organismo.


A administradora sublinha que “o acordo entre a SCML e a Fundação cria condições para trabalhar com confiança e estabilidade”, para descobrir caminhos sustentáveis. “Em Paris, no Louvre, foi-me dito que [o que as pessoas e a Fundação fazem já é um trabalho de dinossauros], o que significa muito”.

Maria da Conceição destaca que a Fundação é das “poucas e únicas” que faz este trabalho, classificando-o como raro e executado com rigor, qualidade, matérias nobres (ouro, prata, madeiras exóticas), sempre manufaturado. “São produtos de luxo”, finaliza.

Saiba mais sobre a Fundação.

9 de dezembro de 2016

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