Reportagem da Semana
O refúgio dos artistas
A Residência Faria Mantero, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi criada para acolher figuras da cultura portuguesa. Por lá passaram António Ramos Rosa, Maria Keil e Herberto Miranda, entre outros.

O nome Agripina pode não dizer muito a muita gente, mas quando conjugado com os seus dois últimos apelidos, Ramos Rosa, o nome ganha outra dimensão, um novo significado.

Já diz o provérbio popular: “Por detrás de um grande homem, existe sempre uma grande mulher”. Neste caso basta trocar os sujeitos, homem e mulher da frase, por poeta e musa, para ficarmos com a ideia do que foi, é e será Agripina na vida e obra do poeta António Ramos Rosa.

“Houve uma certa noite em que tive um sonho. No dia seguinte reparei que ele [Ramos Rosa], estava a escrever um poema, no final ele mostrou-mo e ao lê-lo percebi que era o meu sonho”, conta Agripina. 

As grandes janelas que compõem o semicírculo do espaçoso quarto são o palco preferido de Agripina Ramos Rosa para as suas leituras diárias. O silêncio, que apenas é interrompido pelo chilrar dos pássaros que pairam nas árvores do jardim da Residência Faria Mantero, faz Agripina retirar o olhar dos livros que compõem a sua mesa de apoio.

É neste quarto da Residência Faria Mantero, no Restelo, que vive há quase duas décadas Agripina Ramos Rosa, de 88 anos. Na companhia de António Ramos Rosa, um dos mais destacados nomes da poesia contemporânea, que faleceu em 2013, o espaço foi-se transformando num memorial ao poeta.

Em frente à cama há armários com livros e no sofá mais livros ainda, não fosse este um espaço de letras, virgulas e pontos finais. Ao fundo, numa parede do quarto, três pinturas da autoria do marido fazem-lhe companhia nos dias que passam devagar, entre as linhas lidas e as linhas escritas do seu caderno de notas.

“Os meus dias são calculados pelo sol. Acordo quando ele acorda e deito-me quando ele se põe. Enquanto isso tenho a luz do sol para ler e para retirar algumas notas para memória futura”, frisa Agripina.

De uma conversa ímpar e uma lucidez que envergonha muitos jovens, Agripina é uma mulher feliz e realizada. Embora reconheça que viver da poesia é muito difícil.

“Felizmente o meu marido conseguiu viver da poesia, era feliz no que fazia, mas foi muito difícil viver apenas da poesia e por isso eu nem sempre conseguia estar em casa. Algum de nós tinha de ter os pés na terra”, diz sorridente.

Agripina Ramos Rosa, também ela escritora, será recordada invariavelmente como a esposa e companheira de uma vida do poeta Ramos Rosa, no entanto, para a poetisa esta foi a vida que escolheu e que em nada se arrepende.

“Conhecemo-nos já tarde, eu com cerca de 30 anos e ele com mais cinco do que eu. O meu marido dedicou-se à poesia e às artes no geral e eu dediquei-me a ele”, recorda com saudade.

Quando questionada sobre o que ainda quer alcançar na sua vida, Agripina, mostra-se fiel ao papel inconformista de um poeta: “Ler, ainda tenho muitos livros para ler”.

Uma casa das artes

Agripina Ramos Rosa é uma das residentes desta casa que foi doada por um casal de beneméritos - o empresário Enrique Mantero Belard e sua mulher, Gertrudes Verdades de Faria -  para ser utilizada como lar para pessoas idosas, cultas, de  mérito e necessitadas.  O projeto foi entregue à Fundação Calouste Gulbenkian mas acabou por ser assumido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, depois da  legatária original o ter rejeitado.

Para Lígia Praça, diretora da residência Faria Mantero, este é um equipamento “muito especial para a Misericórdia de Lisboa”, porque personifica a vontade dos beneméritos “em deixar um espaço que se dedique a prolongar a memória de muitos e variados artistas nacionais”.

Construção dos anos 30, projetada pelo arquiteto Vasco Regaleira e utilizada como residência oficial do casal Mantero Belard, esta casa com seis quartos, um espaçoso salão, uma  sala de jogos  e rodeada de jardins foi inaugurada como um local para que os intelectuais não terminem os seus dias em clima de insegurança. 

Com capacidade para acolher 8 residentes, este equipamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem como missão proporcionar um espaço digno a quem dedicou a sua vida a elevar as artes e a língua portuguesa além-fronteiras.

“Eles [residentes] encontram aqui um espaço que lhes permite continuar a atividade que tinham no exterior. Para além de estarmos num sítio privilegiado da cidade, estamos rodeados de arte de artistas consagrados, o que proporciona o ambiente ideal para que possam continuar a escrever, a ler e acima de tudo a serem felizes”, concluiu a diretora.

21 de setembro de 2017

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