Reportagem da Semana
Os coloridos passos de Maria João
Começou por ser uma forma de terapêutica diferente e original. Incentivou as crianças a pintar ténis e hoje esta terapeuta de Sant´Ana calça as cores dos meninos que ajudou.

Maria João, terapeuta no hospital de Sant´Ana, não é uma estilista de renome, nem uma socialite, mas usa umas sapatilhas muito especiais, com direito a nome próprio. Não são Chanel, nem Dior. São "Dulcinei, Breno, Leonor". Não se aflija o leitor mais atento ao mundo da alta-costura. Não conhecer estas "marcas" não o deixa fora de moda. Até porque, jamais saberemos o que estará in na próxima temporada. Mas as histórias de superação e dedicação que se escondem nos passos coloridos de Maria João são especiais. Em qualquer altura do ano.

A passerelle da nossa conversa é a pequena e soalheira horta junto à sala onde se realizam as sessões de terapia. O que desfila perante nós, mais do que os cinco pares de ténis personalizados, são as histórias dos pequenos artistas que os pintaram. Impressiona a forma como esta terapeuta transforma o que poderia ser um vulgar saco cheio de sapatilhas num saco cheio de ternura. Maria João lembra-se, pormenorizadamente, não só do nome da criança que fez cada par, mas também da luta que se esconde em cada sola. A explicação aparece-nos sorridente quando a nossa conversa já vai mais avançada. "Estas crianças nunca me abandonam. Não preciso de umas sapatilhas para me lembrar delas, mas achei que era mais do que justo utilizar as recordações que me deixaram".


E utiliza. Todas as sapatilhas têm marcas evidentes de uso. Existem até pares em que o nível de desgaste faz a terapeuta confessar, bem-disposta, que precisa de comprar novas palmilhas. As mais antigas têm três anos e saíram das mãos, na altura recentemente operadas, da Leonor. 

A menina tinha sido operada de forma a combater um efeito patológico que a fazia ter as mãos sempre cerradas. A ideia de pintar uns ténis surgiu como forma de estimular e de trabalhar a sua motricidade fina. Foi um sucesso. Um triunfo tão completo que até o pai quis participar. O primeiro par que Maria João nos mostra é então um trabalho de equipa. Uma sapatilha é da autoria da criança, e a outra do seu pai, as duas elaboradas sob a orientação da terapeuta. Depois de concluídas, ficou a promessa de que seriam usadas. Nem toda a gente acreditou.

"O pai achou que eu nunca iria usá-las e eu cheguei-lhe a mandar fotografias comigo a utilizá-las na rua para ele ver. Estas sapatilhas têm três anos e contínuo a usá-las".  

À medida que nos vai expondo os diferentes pares de ténis, os nomes e relatos vão surgindo pela boca de Maria João com um afeto transbordante. Exemplo disso é a história de Breno. "Quando chegou cá, com 13 anos, ficava deitado no colchão e não conseguia sequer rebolar sozinho. Neste momento, já anda de canadianas, sobe e desce degraus e é mais um dos meus orgulhos". Mas a parte física não era a única a precisar de ser trabalhada. A falta de autoestima de Breno era preocupante. 

"Para ele é muito difícil perceber que é bom em qualquer coisa. Acha sempre que o que faz não tem muita importância." Apesar de, num ano, ter conseguido começar a andar, a sua falta de confiança era tanta que a terapeuta conta-nos que "nem sequer isso valorizava." Foi para lutar contra esta realidade que Maria João decidiu que "era giro fazermos algo concretizável para que ele percebesse o amor, o carinho e o gosto que eu tinha em utilizar aquilo que ele tinha feito."

O projeto teve efeitos positivos que ainda hoje se fazem sentir. Muito por culpa de Maria João, que não deixa que aquele primeiro "sorriso tímido" desapareça. Quando sabe que o menino está a fazer tratamentos vai "a correr calçar as sapatilhas" para lhe mostrar que ainda as usa.

A dedicação que enche cada gesto desta profissional não esmorece quando as portas de Sant´Ana se fecham atrás de si. Maria João não consegue cortar os laços que estabelece com estas crianças. "Contínuo a visitá-las e a levar prendas nos natais, a telefonar e a perguntar como estão as mães, como corre a escola, se é preciso ajuda para alguma coisa."

Este apego "é algo que se calhar tenho de trabalhar no futuro" confessa, sorridente, não se mostrando, no entanto, muito preocupada. E vendo a felicidade que estas relações próximas provocam, podemos perceber que assim seja.

"Eu acho que me apaixono por pessoas. Gosto de as conhecer e acho que toda a gente tem uma história que nos faz refletir e aprender."

Se é verdade que cada pessoa tem algo para nos ensinar, é seguro dizer que a lição de dedicação de Maria João se aprende caminhando. Que os seus passos a levem então, no futuro, a cada vez mais cores.


Fotografia: Carlos Teixeira
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