Reportagem da Semana
Os escultores da esperança
O Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão tem um "cantinho" que poucos conhecem: uma oficina de próteses e ortóteses. É daqui que saem, diariamente, "milagres", para pessoas amputadas e com limitações de mobilidade.

Quando entramos na oficina de próteses e ortóteses do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, deparamo-nos com um sem fim de materiais, desde parafusos, gesso, silicone, cola... Ficamos com a sensação que estamos no atelier de um escultor. 

São os técnicos ortoprotésicos que dão vida a esta oficina, através do desenvolvimento de próteses e ortóteses; conceitos que podem ser confundidos, mas que são bem diferentes.

"As próteses servem para substituir algo inexistente (um braço, uma perna...), enquanto uma ortótese substitui uma função. Por exemplo, uma ortótese é indicada para alguém que tenha um membro cujo sistema nervoso não comunica com a fibra muscular e, por isso, a pessoa não consegue fazer movimentos com ele", explica Cristiano Barros, coordenador de Ortoprotesia do CMRA. 

O Centro de Alcoitão foi a primeira unidade hospitalar em Portugal a ter uma oficina de próteses. Nasceu nos anos 60, durante a guerra de África, para ajudar os militares que tinham que ser amputados. 

Hoje em dia, a realidade é bem diferente: 80% das amputações têm origem vascular, sobretudo como consequência da diabetes. Já os traumáticos (vítimas de acidentes, por exemplo), representam cerca de 8% a10% dos casos.

Quando pedimos a Cristiano Barros para explicar como se desenrola o processo, desde a chegada do utente ao Serviço de Ortoprotesia do CMRA, passando pelo fabrico da prótese ou ortótese, até à fase em que o utente começa efetivamente a usar estes materiais, a resposta é tudo menos linear. Por um motivo simples: cada caso é um caso.

"Temos dois tipos de utentes: os de primeira vez e os de segunda vez. Neste último caso, o nosso trabalho é mais simples, uma vez que, o que temos que fazer, é reproduzir uma prótese já existente. Já nos doentes de primeira vez, é tudo mais complexo. Temos que encontrar o padrão de marcha que ele tinha antes de ser amputado e há todo um processo de recuperação na fisioterapia. Além disso, e esta parte é muito importante, há a questão emocional que precisa de ser analisada e trabalhada. Ela é crucial para o sucesso, ou não, do nosso trabalho", esclarece.

O que também faz diferença é se o utente é homem, ou mulher. Como refere Cristiano Barros, "em Portugal as mulheres ligam muito à parte estética e, muitas vezes, escolhem-na em detrimento da vertente funcional; o que se evidencia particularmente no caso dos membros superiores". O coordenador de Ortoprotesia do CMRA dá um exemplo: "no caso de uma mulher que tenha perdido a mão, é mais usual que ela prefira uma prótese que seja visualmente parecida com a mão que perdeu, ou seja, que opte por uma prótese estética passiva, mesmo que ela não ofereça funcionalidades tecnológicas, como por exemplo o movimento de preensão (capacidade para agarrar ou segurar)."

Em resumo, proporcionar, aos utentes, uma vida o mais parecida possível com a que tinham antes da amputação, ou de terem perdido a mobilidade, é a função principal de um técnico ortoprotésico. No entanto, para estas pessoas "existirá sempre um antes e um depois", sublinha Cristiano Barros.


(Re)começar

Paulo faz parte dos 8 % a 10% dos casos traumáticos referidos. Tinha 9 anos e toda a energia de uma criança desta idade, quando um acidente com uma máquina agrícola o deixou sem uma perna. Uma fatalidade que acabou por ser amenizada com a ajuda do CMRA, onde é acompanhado há 33 anos.

De certo modo, Paulo sente que foi em Alcoitão que cresceu. "Foi aqui que reaprendi a andar e me fiz homem", diz. 

Olhando para trás, é inevitável ver as diferenças. "As coisas mudaram muito desde que vim para cá", conta. "Para começar, os materiais usados eram muito diferentes. Lembro-me que, no início, tive uma prótese de madeira que era muito pesada e, muitas vezes, o contacto com a pele causava dores. Com o silicone, que é o material que uso agora, isso já não acontece. Além disso, a prótese que tenho atualmente é de carbono e é muito leve. Às vezes até me esqueço que sou coxo", revela, com um sorriso brincalhão.

Paulo não esconde o reconhecimento e respeito que tem pelos profissionais que o acompanham em Alcoitão, que "são muito pacientes e não descansam até acertarem com os encaixes e até terem a garantia que a prótese não causa desconforto ao utente. No meu caso, e graças ao CMRA, posso mesmo dizer que sou totalmente autónomo. Ando de bicicleta, faço a minha vida... não ter uma perna não me limita em nada!", diz, com orgulho.

É esta dedicação ao utente que, para Cristiano Barros, distingue o trabalho que se faz no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Como explica o coordenador de ortoprotesia do CMRA, "para fazer as próteses e ortótese é preciso trabalho de equipa, que envolve médicos, fisioterapeutas e técnicos, porque cada um de nós vê o doente com olhos diferentes. A excelência do nosso trabalho resulta disso mesmo: de todos se focarem a 100% no utente."

No que diz respeito a números, no ano passado o CMRA fez 77 próteses definitivas e cerca de 700 ortóteses. Estes indicadores são possíveis, em grande parte, graças aos avanços tecnológicos verificados na área, ainda que, segundo Cristiano, as soluções ainda estejam longe de ser perfeitas. Contudo, e tecnologias à parte, defende que, para um técnico, "não é tanto a tecnologia que conta. O importante é sentir que se reconstruiu o utente enquanto pessoa, que se conseguiu ajudá-la a voltar a acreditar na vida e a ter esperança de que é possível viver e ser feliz na sua nova condição."

9 de junho de 2017
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