Reportagem da Semana
Pequenas conquistas, grandes vitórias
As Unidades Habitacionais Assistidas do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA) são um projeto pioneiro no país e funcionam como residências de transição para doentes que estão na última fase para recuperar a autonomia.

Vitória tem 55 anos e, até há bem pouco tempo, tinha uma vida igual a tantas outras. Trabalhava, era ativa, adorava fazer caminhadas e nada fazia adivinhar o que viria a acontecer. 

"Era um dia completamente normal. Acordei, tomei banho, desci para ir trabalhar e, de repente, senti uma dor muito forte nas coxas. Depois, percebi que as pernas não obedeciam...", acabando por se atirar para o sofá, conta.

Foi-lhe diagnosticada Mielite Transversa Idiopática, uma doença inflamatória mediada pelo sistema imunitário da espinal medula, que pode ter implicações a nível motor e sensorial.

Residente em Mação, Vitória foi encaminhada para o CMRA, em Cascais, por ser "o centro de excelência para situações como esta". É aqui que está desde fevereiro do ano passado, indo já no terceiro internamento.

Atualmente, está numa das Unidades Habitacionais Assistidas, inauguradas em abril, sendo uma das primeiras utentes do Centro a usufruir delas. 

"Estar aqui, neste espaço, é um verdadeiro privilégio. Seria ótimo se todas as pessoas com problemas motores pudessem usufruir desta oportunidade. Ter um quarto só para mim, com casa de banho privada... é ótimo!", diz com um sorriso rasgado.

As Unidades Habitacionais Assistidas (UHA) funcionam como residências de transição, tendo sido pensadas para o doente que está na última fase antes de recuperar a autonomia. Funcionam, igualmente, como complemento ao tratamento ambulatório. 

Maria de Jesus Rodrigues, administradora e diretora clínica do CMRA, explica que "as UHA foram criadas porque 99% dos doentes do Centro têm incapacidade motora, dificuldade em andar e em realizar atividades simples da vida diária, como comer, fazer refeições, tomar banho... Apesar destas atividades serem treinadas durante o internamento, nem sempre temos tempo de os ajudar a tornarem-se realmente autónomos. Nestas residências, pretende-se "ganhar" esse tempo. Além disso, estão também vocacionadas para os doentes que, acabado o internamento, não têm condições em casa, dando às famílias oportunidade para se organizarem e diminuírem as barreiras arquitetónicas que possam existir."

Um passo para a autonomia

Vitória não tem dúvidas de que esta experiência é uma excelente forma de aprender a adaptar-se à vida prática. 

"Aqui faço quase tudo sozinha. Faço a cama, tomo banho, faço o pequeno-almoço, o lanche..., o que me faz sentir mais segura e isso é importantíssimo para mim", refere. 

Também Maria de Jesus Rodrigues sublinha a importância deste sentimento de segurança, e dá o exemplo: "um doente que já ande por si, mas que ainda precise de supervisão, se for para casa nessa altura é provável que se verifique um retrocesso. Às vezes, uma ou duas semanas são suficientes para que ganhe a confiança que precisa, o que vai pesar na altura em que regressar a casa. Pode mesmo fazer a diferença. 

As Unidades Habitacionais Assistidas representam um projeto inovador da administração da Misericórdia de Lisboa. Neste momento, o CMRA tem duas UHA, cada uma com três quartos individuais, e uma casa de banho adaptada por quarto, uma sala e uma cozinha comum. Para um futuro próximo, estão projetadas mais quatro unidades T1 com quartos maiores, de modo a que o doente possa ficar acompanhado.

Como esclarece Maria de Jesus Rodrigues, estas unidades "estão abertas a todos os doentes", mas dão prioridade aos que tiverem dificuldades económicas. "Se tivermos vagas, contemplamos também doentes que sejam de longe e que precisem de alojamento. Podem ficar até seis meses contínuos."

Vitória acalenta o sonho de voltar a andar e é com esse objetivo que frequenta a piscina duas vezes por semana, faz fisioterapia e terapia ocupacional todos os dias e exosqueleto três vezes por semana. Atualmente, já consegue "aguentar-se de pé", agarrada às barras, conta, com um brilho no olhar. 

Desde que chegou ao CMRA, Vitória tem mostrado perseverança e otimismo e vindo a somar conquistas. Conquistas importantes, que fazem jus ao seu nome.

27 de janeiro de 2017

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