Reportagem da Semana
Porque sonhar vale a pena
Esta é história de um casal que se apaixonou e casou na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, porque é de amor e de afetos que esta casa se faz.

A "Lei de Murphy" diz que "se algo pode correr mal, correrá certamente". Já nesta história, de Cristina e João Pedro, tudo o que podia correr mal, correu bem, muito bem até.

Tudo começa em 2014. Aos 24 anos, o sonho de menina mantinha-se: casar. Moradora do Centro Residencial Arco-Íris, equipamento da Misericórdia de Lisboa, destinado a acolher adultos e jovens portadores de deficiência, Cristina verbalizava o seu desejo todos os dias. Até que o sonho se tornou realidade.

"Desde o primeiro dia que chegou que Cristina falava no casamento. Toda a gente que cá vinha tinha de saber que a Cristina ia casar. O plano já estava todo traçado, desde a chegada à igreja, aos pormenores da boda", conta Paula Eiró, diretora do centro.

De sorriso fácil e com um entusiasmo contagiante, a recém-casada desvia o olhar quando o assunto é o marido, João Pedro, de 46 anos. Nos dias em que não o vê na escola da Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades (CERCI), regressa a casa preocupada.

João Pedro é residente no Instituto Condessa de Rilvas, da Santa Casa. Como não vivem juntos, o único sítio onde se encontram é na escola, durante o ano letivo, e em algumas atividades que as duas residências realizam em conjunto, tal como acontece nas férias de verão na colónia de São Julião da Ericeira.

Foi numa dessas férias a vida de ambos mudou. Sentada num sofá na sala de convívio da residência, Cristina ri, divertida, ao ouvir as palavras de Paula Eiró, o seu anjo da guarda.

"Ela idealizou o sonho e nós preparamos tudo. Numa das férias que tivemos com os meninos da Condessa de Rilvas, decidimos que cumpriríamos o sonho da Cristina. Estava um dia magnífico, um sol fantástico, um dia ideal para casar, a Cristina parecia uma princesa", relembra a diretora.


Se dúvidas houvesse que o tão aguardado dia iria acontecer, essas dúvidas desvaneceram-se, meses antes da chegada do verão. Num dos passeios que o Arco-Íris fez ao Porto, compraram o arranjo de flores que Cristina seguraria, rumo ao altar, no dia mais importante da sua vida. As cortinas brancas de uma das janelas da casa foram aproveitadas para fazer a parte de baixo do vestido. O véu foi oferecido por uma técnica da residência e o restante dado pela "mãe" das 17 meninas que vivem na casa, a diretora Paula Eiró.

Até que o tão esperado dia, 29 de agosto de 2014, chegou. Cristina recorda a data com um olhar distante. Uma noite mal dormida, uma manhã cheia de ansiedade. O sonho estava ali, "ao virar" de umas horas.

"A Cristina não dormiu a noite toda com a excitação. Durante toda a manhã a preocupação era quando se ia vestir e maquilhar. Se os convidados já tinham chegado. Foi um dia muito engraçado em São Julião porque foi vivido intensamente por todos", conta Paula Eiró, emocionada.

Aos poucos, e com a chegada dos 50 convidados, a sala de convívio da colónia de São Julião foi ganhando cor e ambiente. Á hora marcada chega a noiva, no altar João Pedro aguardava, nervoso. Seguem-se os votos e a troca de alianças.

Atualmente, Cristina e João Pedro frequentam a mesma escola. Com o passar do tempo, o amor, a cumplicidade e o carinho mantêm-se. Trocam mimos e prendas e vão idealizando um futuro perfeito.

"O João é muito ciumento", apesar de eles serem "inseparáveis". "Cada vez que o João Pedro está doente, sabemos logo, porque a Cristina anda triste e preocupada", relata a diretora.

Quando questionada sobre o que pretende para o futuro, Cristina responde esperançosa: "ir a Paris com o meu marido, e depois arranjar uma casa e uma empregada para tomar conta de nós. Durante o dia vamos para a praia e à noite passeamos", diz, sorridente.


17 de março de 2017

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