Reportagem da Semana
Pousal, mais que uma casa, uma família
A Obra Social do Pousal, estabelecimento da Misericórdia de Lisboa, é um lar residencial destinado a pessoas com deficiência. Nesta casa, cruzam-se histórias de vidas, de afeto e solidariedade.

À volta de uma mesa comprida, na sala no primeiro piso do edifício da Obra Social do Pousal, estão várias pessoas, a desenhar. Indiferentes aos intrusos, conversam sobre futebol, sobre as cores mais apropriadas para as suas criações. Partilham experiências, num processo dinâmico, em que a criação é terapia e a terapia potencia a criação. A orientá-los está Débora Aguilar, monitora de Atividades de Tempos Livres (ATL) do Pousal.

É assim todos os dias. A Maria, a Joana, o José, o António e o Rui vivem no equipamento da Misericórdia de Lisboa. Em comum, têm um diagnóstico psiquiátrico, que pode ir da depressão à doença bipolar, ou à esquizofrenia.

Rui Oliveira tem 39 anos e sofre de deficiência. Quando foi entregue aos cuidados da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), em 2009, trouxe com ele a irmã, também portadora de deficiência profunda. Tinha obesidade mórbida, cerca de 220 quilos, um défice de interação social e uma mão cheia de nada. 

Os primeiros tempos de adaptação foram difíceis: uma nova realidade, novas rotinas, pessoas desconhecidas. Gradualmente, Rui foi-se habituando e recuperando o sorriso.

"Quando chegou, o Rui não frequentava os espaços comuns, não falava com ninguém, nem com a irmã". Ficava "sentado em dois sofás, para conseguir estar sentado", conta Débora Aguilar, monitora do Pousal.

Antigo morador do bairro social da Musgueira, no Lumiar, dividia a casa com a mãe e com a irmã. Passava os dias em frente à televisão, a beber coca-cola e a ingerir donuts.

Desses tempos, recorda o quanto gostava dos desenhos animados dos Pokémons. Tanto que ainda hoje traz consigo uma caderneta de cromos dos bonecos japoneses.

"Pesava mais de 200 quilos e não se via uma única emoção no rosto dele (Rui). Hoje, a postura social está radicalmente diferente", conta Débora. Tem duas namoradas e adora "sujar as mãos" na horta pedagógica do equipamento.

Além de tratar da horta, gosta de ajudar na padaria, onde é considerado um dos melhores a amassar o pão. Aproveita, ainda, o tempo disponível, para aprimorar a sua queda para a pintura. As telas expostas nos corredores e nas salas do edifício são da sua autoria.

"É conhecido por ser um dos utentes mais prestáveis. Adora ajudar os amigos, organizar coisas e arrumar", comenta Débora, sorridente. E guarda ainda um sonho: andar de avião.

Uma casa sem muros


Inserido entre os vales da serra da Malveira, a Obra Social do Pousal acolhe pessoas com multideficiência. Projetado para ser uma resposta de continuidade, o Pousal transporta em si histórias de pessoas que, por uma situação de precaridade ou de carência emocional e financeira, encontram nesta casa um espaço aberto e uma família disposta a ajudar.

"Esta obra é um equipamento singular, não só porque atende pessoas com multideficiência em regime permanente, mas também porque dá uma alternativa viável e de confiança a quem entrega os seus entes queridos a esta equipa", diz Dália Nogueira, diretora do Pousal.

Foram nascendo, entretanto, projetos "fora da caixa". Uma quinta pedagógica, em parceria com a Fundação MAPFRE, uma sala snoezelen, equipada com material para estimulação sensorial, e uma loja onde há à venda trabalhos realizados pelos utentes, são alguns exemplos da abertura do Pousal à mudança e à inovação.

"Queremos que os nossos utentes levem uma vida o mais normal possível, dentro das limitações visíveis. Sabemos que nunca serão totalmente independentes. Tentamos, no entanto, criar um ambiente familiar e de união", concluiu, Dália Nogueira.

13 de abril de 2017

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