Reportagem da Semana
Reconstruir vidas além-mar
Soraia Graça saiu do Brasil à procura de uma vida melhor. Em Portugal, encontrou o amor, a doença e a morte. Ajudar os outros é a sua terapia. 

Brasileira, de 48 anos, Soraia deixou para trás a vida que tinha, na Amazónia, para construir um projeto além-mar. No Brasil, foi bancária e trabalhou numa associação não-governamental.

Emigrou por motivos financeiros. Já lá vão 12 anos. Tinha duas filhas e não estava fácil conseguir emprego. Escolheu Portugal, mais precisamente Cascais, porque tinha amigos a viver do lado de cá do Atlântico. 

Trocou o calor tropical, o samba, e a água de coco pelo clima temperado, o fado e os pastéis de nata.

Não tinha ligações de sangue ou de trabalho a Portugal, mas depressa descobriu os encantos lusitanos.

"Não me arrependo de ter vindo para Portugal", conta, explicando que quatro meses depois de chegar conheceu o homem com quem viria a casar.

"Foi amor à primeira vista", revela. Não, não é um guião de uma história romântica de Hollywood. É simplesmente o que acontece quando o fado e o samba se cruzam. Em 2005, Soraia conheceu o amor da sua vida.

A vida corria-lhe bem: trabalhava num país seguro, tranquilo e com paisagens bonitas.

Vivia um sonho. 

Só que, em 2011, é-lhe diagnosticado um cancro. Na altura, Soraia pensou em regressar ao Brasil, mas o companheiro convenceu-a a ficar, prometendo que cuidaria dela.  

Passado um mês, foi a vez de o marido começar a sentir-se doente. Depois de fazer alguns exames, foi-lhe diagnosticada a mesma doença.

Não há ser humano que aguente. Uma casa, duas pessoas, dois cancros. Cuidaram e trataram um do outro na fase dos tratamentos. Naquela fase, viviam um para o outro.

Apesar de estarem doentes, casaram. Pouco tempo depois, o marido morreu. E Soraia resistiu ao embate.

Trabalhou em vários sítios, maioritariamente nas áreas da Ação Social e da Saúde. Em 2014, viu um anúncio de um concurso da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, para auxiliar de ação médica e candidatou-se. 


Depois de ultrapassar várias fases, foi admitida para trabalhar na Unidade de Cuidados Continuados Integrados Maria José Nogueira Pinto. Faz três anos de casa em julho.

Lutadora e Cuidadora

Por tudo o que passou, a candidatura à Santa Casa "foi um desafio para mim", lembra. 

"Gosto daquilo que faço. Procuro estar alegre", diz Soraia. "Envolvo-me com o trabalho. Há dias bons e dias menos bons. Mas é bom trabalhar nesta Unidade".

"Gosto de pessoas". "Gosto de ajudar pessoas. Gosto de crianças e idosos. Tenho oportunidade de os ajudar", diz, falando do que a move.

Desde pequena que sonhava em ser médica. Daí, talvez, o seu jeito com as pessoas.

Entra ao serviço pouco antes das 8h00. Limpa, arruma, faz higiene, dá refeições, conversa, ouve e mima os doentes.

Destaca-se na vertente humana, desenvolvendo amizade. Chega a haver casos de doentes que só comunicam com a auxiliar. É o caso do senhor Pereira (nome fictício). 

A proposta (na brincadeira)

Para motivar o senhor Pereira a voltar a andar, foi-lhe prometido que Soraia casaria com ele. Até a data, o senhor Pereira ainda não anda, mas dá o seu melhor todos os dias.

Enquanto isso, Soraia está ainda a fazer tratamento. Não quer fazer planos. Prefere estabelecer metas pequenas, dia após dia. 

Sonhar agora em formar-se em Psicologia, continuando a transmitir alegria aos doentes da Unidade.

A primeira Unidade Cuidados Continuados Integrados da Santa Casa

Inaugurada em 2012, a Unidade de Cuidados Continuados Integrados Maria José Nogueira Pinto foi a primeira da Misericórdia de Lisboa a disponibilizar Cuidados Continuados e Paliativos. Com 72 camas e 113 colaboradores, foi pioneira a aliar a prática da reabilitação à componente terapêutica.

Filipa Andrade, diretora, Célia Duarte, diretora clínica, e Daniela Cordeiro, enfermeira diretora, desta Unidade explicam que cada doente tem ao seu dispor uma equipa multidisciplinar, desde terapeutas a tempo inteiro, a um ginásio devidamente equipado, enfermeiros especializados, médicos de medicina interna e psicólogos, estando estes últimos também disponíveis para apoiar as famílias.




"A Unidade de Cuidados Continuados Integrados Maria José Nogueira Pinto dispõe de três tipologias de internamento: média duração e reabilitação, para doentes que precisam de cuidados de saúde e de reabilitação até 90 dias; longa duração e manutenção, destinada a doentes com internamento superior a 90 dias; e paliativos", esclarecem.

As patologias mais comuns são a demência, o AVC, o traumatismo crânio-encefálico e a fratura do colo do fémur. A taxa de ocupação média do primeiro trimestre atinge os 86%.

A Unidade recebe doentes do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, da Rede Nacional de Cuidados Continuados, de hospitais privados, assim como utentes de equipamentos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

2 de junho de 2017

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