Reportagem da Semana
Um conto de natal: Aprender a voar
Seis jovens, com comprometimento cognitivo, utentes de lares da Santa Casa, saem, pela primeira vez, do aconchego, experimentando o que é ser autónomo e responsável.

É Natal! Quem percorrer as principais ruas de Lisboa, depressa se apercebe que o espírito natalício invadiu a cidade. É a festa da família, da paz e da esperança. Por todo o país, festeja-se o nascimento de Jesus. 

Mais do que nunca, esta quadra é um pretexto para nos lembrarmos de um amigo, ou de alguém igualmente especial. E é quando nos lembramos de alguém que nascem os milagres de Natal.

Foi o que aconteceu com seis jovens, dos 18 aos 20 e poucos anos, com comprometimento cognitivo, de lares da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), ao serem ouvidos e lembrados pela instituição.
 
Há presentes e presentes. Enquanto uns ambicionam receber tecnologia de última geração, joalharia ou peças de roupa, estes jovens da SCML desejam simplesmente conquistar a liberdade.

Tal como a mãe-pássaro que empurra os seus filhotes para fora no ninho, para voarem sozinhos, a Santa Casa, promove, com estas residências, a autonomia dos seus utentes. Este é o maior presente que esta instituição secular, fundada pela Rainha D. Leonor, pode oferecer aos seus filhos: liberdade, autonomia a responsabilidade, ensinando-os a voar.

Com a inauguração das primeiras Residências de Apoio Moderado (RAM), no passado dia 2 de dezembro, a Misericórdia de Lisboa concedeu aos jovens utentes a possibilidade de realizarem este sonho. Trata-se de um verdadeiro milagre de Natal, que alegra e motiva estes miúdos a conquistarem a sua independência.

Numa zona nobre de Lisboa, abriram os dois primeiros apartamentos de autonomia, com capacidade para três pessoas. Foram alvo de uma requalificação profunda, estando mobilados e equipados com os mais variados eletrodomésticos.

  

Além de serem utentes da SCML, os inquilinos têm, sem exceção, algum tipo de comprometimento cognitivo, desde a falta de noção do valor do dinheiro e do tempo, à dificuldade em orientarem-se no espaço.

Em contexto institucional há muito tempo, cresceram em lares da Misericórdia de Lisboa. Antes de entrarem para os Apartamentos de Autonomia, treinaram três vezes por semana, durante seis meses. Dotar estes miúdos de competências e torná-los o mais autónomos possível são os objetivos pretendidos. O período de aprendizagem, designadamente de como desempenhar tarefas domésticas, serve, também, para se adaptarem a uma nova realidade, completamente autónomos.

Com a ajuda de "mecanismos adaptativos" [mapas, esquemas e auxiliares de memória], aprendem a fazer compras na mercearia, refeições simples, a escolher produtos, a limpar a casa e a lavar roupa.

  

Aos 22 anos, Carlos Marques é um dos primeiros residentes das novas habitações autónomas da SCML. Antes, esteve na Casa das Marés, em Loures, e na Obra do Nazareno. Trabalha numa vacaria na Casa do Gaiato, no Tojal. Para isso, levanta-se bem cedo, apanha o metro para o Campo Grande e depois o "31". É um homem de trabalho.

Carlos limpa, lava, cozinha e é responsável pela casa. Faz, ainda, a gestão do subsídio atribuído pela Santa Casa, um valor calculado em função das suas necessidades. Lembra que nunca tinha feito sopa, arroz, bacalhau ou hambúrgueres. 

  

Catarina Miragaia, educadora social, considera que os "mecanismos adaptativos" ajudam muito estes jovens e que o principal objetivo é acompanhá-los e arranjar-lhes emprego.


Com um estilo bastante descontraído, próprio da idade, Carlos encara com normalidade a mudança para a residência. "Foi uma mudança que tinha que ser. Fiquei no Lar [Casa das Marés] seis anos. É uma experiência nova e que ainda estou a habituar-me", explica.

Na sala nova, mostra o seu entusiamo por ter no bolso a chave da casa que chama sua. Mais do que um espaço próprio, Carlos tem agora uma autonomia e liberdade o que, no Lar, era impossível.

"Foi um grande salto. Com a minha idade, tinha que sair do Lar", conta, revelando que ambiciona, um dia, ter a sua própria casa e um emprego para sustentar a sua "dama".

Mas ainda há coisas que deixam o Carlos pouco confortável: "temos que avisar sempre quando recebemos visitas, ou quando saímos". Mesmo assim, mostra-se radiante por estar a viver na sua própria casa.

Para Maria João Goldsmith Gonçalves, da Unidade de Acolhimento Institucional de crianças e jovens, e diretora das RAM, o mais importante "é que estes jovens sejam o mais autónomos possível e capazes de viver fora da esfera institucional. É um sonho ambicioso, mas não deixa de ser o propósito".

"Apostamos nestes apartamentos como centros de aprendizagem e de passagem para a vida", diz, Maria João. "Nas residências treinamos competências, rotinas e modelos do dia-a-dia que, depois de interiorizados, possibilitam integrá-los mais facilmente na sociedade", explica.


Todo este processo resulta de uma gestão partilhada entre jovens e técnicos da SCML. É tudo negociado. "Não se vive a autonomia, senão se experienciar a liberdade", finaliza.


16 de dezembro de 2016


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