Reportagem da Semana
Um Lar que promove projetos de vida
Miguel e Nuno perderam a visão mas adaptaram-se. Saíram de suas casas e, com o apoio do Lar Branco Rodrigues, voltaram a estudar e a acreditar que a vida se faz com as mãos. Esta é a história de ambos.

Quando tinha apenas sete anos, Miguel de Sousa Fernandes, natural de Quarteira, foi infetado por uma bactéria micoplasma, que lhe provocou uma alergia e depois cegueira parcial. Em menos de 24 horas, perdeu a capacidade de ver o mundo como antes. O facto de ser novo ajudou-o a adaptar-se à sua nova condição, mas foi um período “muito difícil”, conta.

Fez o ensino regular em Boliqueime. Estudou até ao 9º ano, e depois decidiu que tinha de fazer mais por si. Queria conhecer outros ares. Aos 17 anos, começa a tirar o curso de Massagem e Auxiliar de Fisioterapia na Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais (APEDV), em Lisboa. 

A distância não impediu o seu sonho. Longe de casa, a cerca de 300 quilómetros, Miguel recorreu ao Lar Branco Rodrigues, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), para fazer o curso. De outra forma, seria quase impossível. Enquanto estudou, durante dois anos, residiu e foi apoiado pelo equipamento.


O Lar Residencial Branco Rodrigues, localizado na Parede, garante apoio a estudantes portadores de deficiência visual, de ambos os sexos, a partir dos 18 anos.

Este equipamento é uma resposta de âmbito nacional. Visa o acolhimento residencial de jovens e adultos cegos, ou com baixa-visão, que frequentem estabelecimentos de ensino e não tenham condições habitacionais.

Além do apoio residencial, o Lar promove programas de autonomia e de inclusão social que possibilitam, mais tarde, encaminhamento em termos de educação ou formação e integração profissional, familiar e comunitária.

Com capacidade para 30 utentes, esta valência da Misericórdia de Lisboa trabalha a autoestima e dá provas de que um cego, tal como qualquer outra pessoal, pode atingir os seus objetivos.

“Este Lar é muito mais que um Lar. Além do apoio residencial, as pessoas são acompanhadas no seu projeto de vida”, afirma, Ana Paula Silva, diretora do Lar Branco Rodrigues.

A diretora diz também que, enquanto os mais novos utilizam o estudo para entrar no mundo do trabalho e ser mais autónomos, os mais velhos fazem-no para ocuparem o seu tempo.


Mal terminou o curso, Miguel começou a trabalhar na equipa de Massagem do Aquashow, em Quarteira, no Algarve, experiência que considerou positiva. Mas, pouco tempo depois, voltou a sentir vontade de progredir. É aí que regressa a Lisboa, mais uma vez contando com o apoio do Lar Branco Rodrigues. Voltou a estudar e a fazer cursos que valorizassem o seu currículo.

Foi em 2015 que o Lar Branco Rodrigues criou um serviço de massagens, a preço acessível, assegurado por pessoas com deficiência visual, utentes do equipamento, credenciados profissionalmente. Tudo começou com a organização de um “open day”, nesse mesmo ano.

Divulgar as competências dos utentes do Lar era o objetivo deste dia aberto, que se transformou numa forma de os integrar no mercado de trabalho, aproveitando a sua formação na área da massagem. 

De segunda a sexta-feira, o espaço de massagens está aberto à comunidade, sendo necessária marcação. Em 2016, foram feitas 800 massagens, a um total de 108 utilizadores. 


A qualidade do serviço prestado pelos utentes foi reconhecida, também, através da assinatura de um protocolo entre o Lar e a Immochan, uma empresa do grupo Auchan.

Trata-se de uma “aposta na empregabilidade” dos utentes do Lar, defende a diretora do Lar, frisando que Misericórdia de Lisboa tem apoiado a iniciativa de “forma extraordinária”. Exemplo dessa colaboração foi a abertura do primeiro curso de Massagem de Relaxamento e Bem-Estar, com oito alunos, no dia 2 de novembro, no Lar Residência Branco Rodrigues. 


Visivelmente satisfeita com os resultados, Ana Paula tem esperança que o serviço de massagens possibilite integrar, cada vez mais, os seus “meninos” no mercado de trabalho.

A dar os primeiros passos nas massagens está Nuno Manuel Silveira, de 29 anos, da Ilha Terceira, nos Açores. Em 2014, veio para o Lar Branco Rodrigues, para fazer o curso de Massagem e Auxiliar de Fisioterapia na Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais (APEDV).

Nuno tinha apenas 16 anos quando deixou de ver do olho esquerdo. Mais tarde, uma doença congénita limitou-lhe a visão do direito. “O resto do país não tem os mesmos apoios que Lisboa”, lamenta, afirmando que há uma “diferença enorme” entre os Açores e Lisboa.

Na capital, Nuno consegue fazer a sua vida sozinho. É autónomo, faz compras, circula, convive, estuda, trabalha. “Em Lisboa, saio do Lar e vou para o aeroporto sozinho. Nos Açores, praticamente não saio de casa”.

“O Lar é muito importante para quem vem de fora de Lisboa. É a minha segunda casa”, refere. Neste momento, está concentrado na sua vida profissional, ambicionando ter “casa própria” e ser “olhado como igual”.

Já Miguel sonha ter o seu próprio “espaço”. Quer trabalhar por conta própria na zona de Lisboa. Por essa razão, tem investido em formações e cursos complementares no âmbito das massagens e do bem-estar. 

Fruto da parceria estabelecida entre o Lar Residencial Branco Rodrigues e a Immochan, Miguel está a trabalhar, às quintas-feiras, no Experience Box, no Centro Comercial Alegro, de Alfragide, fazendo massagens de relaxamento, terapêutica, localizada e drenagens linfáticas.

“Consigo ser independente e autónomo”, diz, Miguel Fernandes, sublinhando que desde os 17 anos que o Lar “é uma grande ajuda no meu projeto de vida”.

O Lar Residencial Branco Rodrigues dispõe, ainda, de uma biblioteca literária e musical e de um serviço de produção documental, um importante acervo em braille, constituído por cerca de 3000 exemplares.


20 de janeiro de 2017

O refúgio dos artistas +

Alegria, convívio e atividade física +

Pousal: 53 anos a praticar Boas Causas +

O verão em que os festivais tocaram a todos +

Uma casa de portas abertas +

Descodificar sons, palavras e corações +

Voluntariado: uma forma de ajudar +

Santa Casa: Um festival dentro do MEO Sudoeste +

Fantoches e crianças vão à praia +

Cristina, a rainha das medalhas +

1 2 3 >
Facebook