Reportagem da Semana
Um novo rumo, uma nova vida
Esta é a história de três irmãos, João, Daniel e Hugo, chamemos-lhes assim. Vieram para Portugal, em busca de uma vida melhor. Ficaram na miséria, mas continuaram a acreditar. 

Diariamente, centenas de pessoas aterram no aeroporto da Portela, em Lisboa, umas para conhecer a cidade, outras com a esperança de uma vida melhor. Fogem da guerra, da fome, da miséria. Esta é a história de três irmãos, que encontraram na Unidade de Emergência (UE), da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), a luz ao fundo do túnel.

A vida não tem segredos para estes três irmãos. Cedo aprenderam com os pais, ambos portugueses, emigrantes na Venezuela, que se ambicionam uma vida boa têm que trabalhar e “correr atrás”, como conta João, o mais velho de todos.

Tudo corria bem nas vidas de João, Daniel e Hugo. A família crescia com a chegada de um filho de Daniel, de 34 anos, o mais novo dos três. João, de 42 anos, e Hugo, de 37, tinham uma pequena mercearia na cidade de Maracay, Daniel seguiu o ramo da construção civil, como ladrilhador. Até que um dia tudo mudou. 

Decorria o mês de setembro, sempre com um intenso calor, em Maracay, quando os três irmãos são interpelados, vendados e sequestrados à porta da mercearia.

“Tínhamos comentado que se sentia um clima de insegurança. Uma semana antes, tinham roubado o carro do meu pai e pedido um resgate para o devolverem. Embora soubéssemos que a nossa segurança estava em perigo, nunca pensamos que o nosso sequestro pudesse acontecer”, relata, Hugo.

Depois de uma semana em cativeiro e do resgate pedido e pago, foram finalmente soltos. Chegados ao pé da família, a decisão estava tomada, teriam de abandonar o país.

O primeiro destino em que pensaram foi a ilha de Aruba, no mar do Caribe, situada perto da Venezuela, onde tinham amigos e família. Chegaram depois à conclusão que a melhor opção seria Portugal, não só porque os dois irmãos mais velhos, João e Hugo, tinham nacionalidade portuguesa, mas também porque o obstáculo linguístico seria facilmente ultrapassado.

Venderam tudo o que tinham, angariaram 500 euros e apanharam o primeiro avião, com destino ao nosso país.

“Chegamos no dia 14 de novembro a Lisboa. Estivemos mais de duas horas à porta do aeroporto sem saber para onde íamos. Tudo era estranho. Não conhecíamos nada nem ninguém”, conta, João.

Os primeiros tempos em Lisboa foram de dificuldade. As refeições eram à base de pão com fiambre e o dia decorria na companhia de um jornal, que folheavam à procura de emprego. Ficaram instalados no primeiro “hostel” que encontraram. Daí a uma situação de carência, foi um instante.

“Tentamos sobreviver com o que tínhamos, até que chegou uma altura em que fomos ao Centro de Apoio Social dos Anjos”, da Misericórdia de Lisboa, pedir ajuda. “Foi assim que a instituição entrou na vida dos três irmãos. Foi um milagre”, diz João, emocionado, ao recordar os tempos complicadas que viveram.

No refeitório dos Anjos, encontraram afeto, uma refeição e, sobretudo, pessoas com espírito de missão, dispostas a ajudar. Foram encaminhados para a Unidade de Emergência do Cais do Sodré, um serviço destinado a pessoas em situação de sem abrigo, onde viriam a conhecer o seu “anjo da guarda”.


Fátima Rudera, técnica da Unidade de Emergência, há mais de uma década, recorda-se do dia em que recebeu os irmãos. “Quando aqui chegaram vinham um pouco a medo e com vergonha. Ainda não estavam numa situação de sem-abrigo. Ficamos todos comovidos com a perseverança deles e, percebemos que, se não fizéssemos nada rapidamente, iriam ‘cair’ nas ruas”, conta, emocionada.

Atualmente, João, Daniel e Hugo trabalham na construção civil, todos no mesmo sítio. Com o apoio da Misericórdia de Lisboa, conseguem pagar a renda e ter uma alimentação digna. Aos poucos, vão recuperando o sorriso e a vontade de viver. Amizades começam a ser feitas, assim como laços que criam com a família que escolheram deste lado do oceano.

“Temos um amigo brasileiro que nos está sempre a convidar para churrascos na casa dele. Tem sido uma pessoa que nos tem dado a mão”, diz Hugo.

Quando questionados sobre o que pretendem para daqui para a frente, os três respondem pronta e visivelmente emocionados: “ficar em Portugal” e, principalmente, voltar “a ser feliz com a nossa família, que ainda está na Venezuela”.


Uma porta aberta, uma mão amiga

Situado em plena zona ribeirinha, no Cais do Sodré, no cruzamento da rua Cintura do Porto de Lisboa com a rua Cais da Ribeira Nova, a Unidade de Emergência, da Santa Casa, permite centralizar num edifício todas as valências e serviços disponíveis na cidade de Lisboa, para apoio às pessoas em situação de sem-abrigo ou em risco de ficar nessa condição.

Uma sala de espera, seis gabinetes de atendimento personalizado, uma divisão para crianças, casas-de-banho, um balneário, um depósito de roupa, vários espaços administrativos e uma área de comando. É simples a arquitetura do edifício de dois pisos. Aqui, cada caso é tratado de forma individual e com uma resposta personalizada.

“A nossa intervenção é de emergência, tentamos reduzir a exclusão social. Quando aqui chegam, as pessoas são avaliadas por uma equipa multidisciplinar de maneira a se entender se é uma necessidade imediata ou não urgente”, salienta Fátima Rudera.

Inaugurado em outubro de 2013, todos os dias a Unidade de Emergência responde a dezenas de solicitações que chegam através de parceiros, de que é exemplo a Cruz Vermelha. 

“Uma das principais caraterísticas deste serviço é trabalhar em parceria com várias entidades, o que nos permite tratar casos que, de outra forma, passariam ao lado do nosso radar”, diz a técnica. 

Para Fátima Rudera, é também essencial “fazer um esforço para combater a vergonha que muitas pessoas sentem em procurar ajuda”. Além disso, o tipo de pessoas que procuram este serviço tem-se alterado desde 2008, altura em que a crise económica se instalou em Portugal.

Outra dificuldade, essa mais recente, tem sido a “procura de famílias, situações de grávidas, de casais ou de famílias monoparentais com filhos”. Estas novas situações têm chegado com mais frequência à Unidade de Emergência, algo que preocupa a equipa, que diariamente faz a diferença na vida de tanta gente.
Apesar das dificuldades, a técnica considera que há muitos casos de sucesso, o que a motiva a trabalhar com o mesmo empenho de sempre. “A união e o bom ambiente” são aspetos que considera fundamentais para que tudo corra pelo melhor. 

24 de fevereiro de 2017
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