Reportagem da Semana
Um refúgio na noite
Existe um espaço, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que acolhe quem por lá passa em busca de uma refeição quente e um espaço para dormir num ambiente controlado, acolhedor e moderno.

Paralela a uma das avenidas mais emblemáticas da capital, a Avenida da Liberdade, o CATMA, nome pelo qual é conhecido o Centro de Alojamento Temporário Mãe d'Água, da Misericórdia de Lisboa, proporciona diariamente, entre as 18h30 e as 9h00, alojamento temporário e de emergência a pessoas que se encontrem em situações vulneráveis e de sem-abrigo.

Uma porta verde, de metal, que contrasta com o amarelo pálido do prédio, serve de entrada. O edifício é composto por três pisos, repartidos com as várias comodidades do centro, onde pernoitam diariamente perto de 30 residentes, seis em alojamento de emergência e os restantes em alojamento temporário. 

É no primeiro andar que a casa ganha vida. Na entrada, existe sempre um sorriso para receber quem aqui vem e no pátio interior, enquanto se espera pelo jantar, as amarguras dão lugar a animadas conversas sobre clubismos e politiquices. Na sala multimédia as senhoras recolhem-se com os olhos postos na televisão a falar das últimas da novela.

"Casa, cama e roupa lavada", esta é uma frase que todos conhecemos e que não raras as vezes a entoamos como um projeto de futuro risonho e sem sobressaltos. 
Jorge, de 59 anos, é uma dessas pessoas. Nascido e criado em Aljustrel, no baixo Alentejo, desde cedo que a vida não tem segredos para ele. 

Oriundo de uma família com poucos meios, Jorge, rapidamente percebeu que a sua vida iria passar "pela grande cidade", como o próprio carinhosamente chama a Lisboa. Depois de uma experiência no Algarve, na indústria hoteleira, este orgulhoso alentejano, pegou nas malas e apanhou um comboio para Lisboa, para ser cozinheiro, onde precisassem dele.

"Estive no Algarve até à década de 80, depois surgiu a oportunidade de ir para a grande cidade e aqui estou desde então, umas vezes pior outras vezes melhor", recorda Jorge.

Em setembro deste ano, o azar bateu à porta de Jorge. De um momento para o outro, recebe a notícia que iria ser dispensado do pequeno restaurante na baixa pombalina, onde era um dos três cozinheiros que diariamente confecionavam dezenas de refeições. Durante uns tempos, "Guerreiro", nome que herdou dos tempos de "moço" no Alentejo, conseguiu viver com as pequenas poupanças que entretanto amealhara. 

A meio de outubro, e já sem nenhum dinheiro e sem sítio para dormir, sentiu que estava na altura de lutar contra o preconceito e a vergonha e foi pedir auxílio à Unidade de Emergência, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Cais do Sodré.

"Fiquei sem emprego em setembro, entretanto as minhas poupanças gastaram-se e aí senti que tinha que ter ajuda senão ia parar à rua. Graças a Deus a Santa Casa no mesmo dia conseguiu arranjar-me um teto para dormir", conta emocionado.

Assim foi, desde meados de outubro que é apoiado pela Misericórdia de Lisboa e no CATMA encontrou uma solução temporária para a sua situação. 

Todos os dias a sua rotina é a mesma. Durante a sua hora de almoço, que por norma é feita no Centro de Apoio Social dos Anjos, da Santa Casa, utiliza os computadores do centro para, com o auxílio dos técnicos da instituição, procurar emprego e melhorar o seu curriculum.

"Encontrei na Santa Casa tudo o que nunca tinha tido, essencialmente percebi que basta termos força de vontade e que todos os técnicos estão sempre lá para nos ajudar a dar a volta para retomamos o nosso caminho", frisa Jorge.
Quando questionado sobre o que pretende para o futuro, Jorge responde esperançoso: "arranjar trabalho rapidamente e quando chegar a altura da reforma voltar para a minha terra e poder ter o meu cantinho e um espaço para fazer uma pequena horta", diz, sorridente.

Uma porta aberta

Todos os meses, dezenas de pedidos para acolher pessoas chegam ao CATMA, diz Sara Mourão, diretora do equipamento aberto durante a noite. "Esta é uma resposta essencial para pessoas que se encontram em graves situações de vulnerabilidade e que necessitam de uma resposta célere".

Segundo a diretora, em 2016, o CTAMA acolheu 644 pessoas, 437 apoiadas em alojamento de emergência e 207 em alojamento temporário. Um dos problemas sinalizados pela equipa é a reincidência de algumas pessoas. 

"Tendo em consideração os processos estruturais internos e externos de exclusão social dos nossos utentes, verificam-se algumas reincidências que estamos a trabalhar no sentido de definir alguns processos de autonomia adequados a cada caso", salienta Sara Mourão.

É rara a noite em que os quartos repartidos pelos três andares do edifício, não fiquem completos, com pessoas (principalmente homens) que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Por preencher ficam apenas as seis vagas obrigatórias para situações de emergência. 

Para Sara Mourão, é também essencial "fazer um esforço para combater a vergonha que muitas pessoas sentem em procurar ajuda". Além disso, o tipo de pessoas que procuram este serviço tem-se alterado desde 2008, altura em que a crise económica se instalou em Portugal.

Apesar das dificuldades, a diretora considera que há muitos casos de sucesso, o que motiva toda a equipa a trabalhar com o mesmo empenho de sempre. "A união e o bom ambiente" que se vive no centro são aspetos que considera fundamentais para que tudo corra pelo melhor. 

Durante o dia, procuram emprego ou permanecem em outros centros da Misericórdia até que o CATMA volte a abrir portas e, muitos deles possam voltar a comer.

7 de dezembro de 2017

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