Reportagem da Semana
Uma “Casa Amarela”. Um porto de abrigo.
A Santa Casa tem uma unidade que se dedica ao apoio de pessoas portadoras do HIV/SIDA. João é um dos rostos que passou por esta casa. Esta é a história da sua vida.  

Atenta à necessidade os portadores do HIV/SIDA, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) criou, em 1989, a primeira resposta para esta doença, criando o Projeto Solidariedade através da "Casa Amarela", a Residência de Santa Rita de Cássia.

João tem 43 anos, uma história de vida marcada no corpo, uma bagagem emocional pesada e uma força de vontade inabalável.

A história de João começou ainda mal abria os olhos. Negligenciado pelos pais, encontrou, no colo e no afeto da avó, o que se esperaria de uma mãe. A avó, além de desempenhar primorosamente este papel, era companheira, confidente. Aos 15 anos, começa a trabalhar na construção civil e a ajudar em casa, como podia.

"A vida corria normalmente, tinha uma casa, uma família e conseguia ter as minhas coisas. Não me posso queixar da minha juventude, o dinheiro não era muito, mas tinha uma vida normal para um jovem daquela idade", conta João.

Quando completa 20 anos, a sua vida de sofre novamente uma reviravolta. A avó, que era o seu porto de abrigo, falece. De repente, está novamente sozinho.

Nessa altura, aproveitando os seus conhecimentos em construção civil, constrói uma pequena "barraca" na zona de Caneças e muda-se para lá. É aí que começa a sua dependência, rodeado de amigos que já conheciam o mundo das drogas. Conhece a sua primeira namorada por quem se "apaixonou loucamente".

"Eu tinha um grupo de amigos que já conheciam esse tipo de vida, conheci também a minha primeira namorada. Sabia que o rumo não era o correto, mas lá fui continuando", desabafa João.

Num segundo, tudo muda

Depois de alguns anos a viver uma vida de excessos e sempre acompanhado por "más companhias", Johnny, como é conhecido pelos amigos, recorda um episódio que lhe viria a marcar o corpo e a vida para sempre. "Tinha 23 anos e depois de uma noite mal calculada, acordei no hospital do Desterro, ligado às máquinas. De repente, apercebo-me que não consigo mexer as pernas".

Uma toxoplasmose (doença infeciosa que atua na coordenação motora, podendo causar infeções respiratórias, como pneumonias e tuberculose, e que se manifesta em pessoas com o sistema imunológico enfraquecido) colocou-o numa cadeira de rodas. O diagnóstico, já assustador, continha outra má notícia, João tinha contraído o HIV/SIDA, com a companheira que julgava estar bem de saúde.

"Só soube que tinha contraído o vírus quando fui parar ao hospital. Depois de o médico me explicar o que era a doença e os fatores de risco é que percebi que as más notícias não acabavam ali. Infelizmente a minha namorada tinha o vírus e passou para mim", comenta emocionado.

Depois do choque inicial, Johnny não desistiu de lutar por uma vida melhor. Ao fim de três anos, numa cadeira de rodas, começou tudo do zero.

Devido às suas condições de saúde e mobilidade, arranjar trabalho transformou-se numa batalha hercúlea. 

Como não conseguia arranjar um trabalho, recorreu aos apoios do Estado. Concorreu ao Rendimento Social de Inserção e procurou ajuda nos amigos que sempre, com quem se dava antes de consumir droga.

Perto dos 30 anos, apaixona-se pela segunda vez. Vive um "amor de adolescente" e, desta relação, nasce o seu primeiro e único filho, hoje com 13 anos. 

"Conheci uma pessoa já perto dos 30 anos. Uma pessoa que não tinha vícios, não bebia, não fumava, não se drogava e tivemos um filho. Aceitou-me sempre como era e foi dos momentos mais felizes que tive até hoje" diz. "O melhor que a vida me deu foi o filho que surgiu fruto desse amor".

A relação termina dois anos depois, João pede ajuda à Misericórdia de Lisboa, depois de se ver novamente desamparado. 

É então que conhece a "Casa Amarela", onde é recebido de braços abertos. Depois de uma primeira fase de adaptação a uma nova realidade, começou os tratamentos para o HIV/SIDA, sempre com o apoio de uma equipa multidisciplinar que trabalha diariamente na Residência de Santa Rita de Cássia.

"Felizmente, contei sempre com o apoio da Santa Casa, foi o melhor que me aconteceu na vida. Se, na altura, não tivesse encontrado esta ajuda, não sei onde estaria agora. Serei sempre grato a toda a equipa da Casa Amarela e à Misericórdia de Lisboa", sublinha, sorridente.

Hoje, João mora num quarto de uma casa independente e espera voltar a ter uma relação de proximidade com o filho de 13 anos.

"O que mais quero é voltar a ter o controlo absoluto da minha vida. Sei que tenho limitações, mas espero conseguir reatar com o meu filho. Resta-me ir vivendo um dia de cada vez, da melhor maneira possível", concluiu João.

Objetivo: Integrar

"Paredes meias" com a segunda circular, a "Casa Amarela", nome pelo qual é conhecida a Residência Santa Rita de Cássia, apoia permanentemente pessoas com necessidade de acompanhamento terapêutico que se encontrem em situação precária, a nível social, familiar e económico. Atualmente, todos os casos que acolhe estão associados ao HIV/SIDA.

Uma equipa jovem, pluridisciplinar, dinâmica e comprometida com os objetivos do Centro, composta por enfermeiros, psicólogos, monitores e auxiliares, presta diariamente apoio a todos os utentes.

O diretor da Unidade de Acompanhamento Terapêutico (UAT), enfermeiro João Geraldo, explica que esta unidade serve para a "estabilização dos utentes". Ao contrário de outros centros, a UAT "pretende dar resposta, sem ter um tempo determinado, para a inclusão do doente na comunidade".

Na Residência Santa Rita de Cássia, "os utentes são encorajados a participar em todas as atividades do centro", explica João Geraldo, adiantando que as atividades "servem essencialmente para que eles se sintam bem e integrados".

Além deste Centro, integram igualmente a UAT, pertencente à Direção de Intervenção em Públicos Vulneráveis, a Residência Madre Teresa de Calcutá e os Centros de Santa Maria Madalena e de São José.

2 de dezembro de 2016

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