Reportagem da Semana
Uma escola para a vida
Mais de 250 jovens recebem formação profissional na Aldeia de Santa Isabel (ASI), no primeiro projeto intergeracional da Misericórdia de Lisboa.

Situada em Albarraque, nos arredores de Sintra, há uma típica aldeia saloia, com recantos e espaços verdes, onde o azul e o branco das várias casas predominam no horizonte. 

Por aqui passam, diariamente, mais de duas centenas de jovens que encontram na oferta formativa da ASI um modelo de escola no qual se reveem.

Eunice começou o curso de cabeleireira em outubro. Tem 16 anos e mora na linha de Sintra, com os pais e os irmãos. Encontrou um rumo na Aldeia de Santa Isabel, depois de ter chumbado no ano antes de lá entrar. 

Decidiu candidatar-se ao curso profissional de cabeleireira da ASI, depois de uma conversa com a psicóloga da escola que frequentava. "Andava na escola normal, mas faltava e andava desmotivada. A psicóloga falou-me da ASI e dos cursos que existiam. A escolha foi natural, porque sempre gostei desta parte da estética", diz, tímida e sorridente, enquanto as colegas colocam rolos e secam o cabelo de algumas manequins.

Antes de entrar na ASI, Eunice completou o 7º ano de escolaridade. Agora, que encontrou a sua vocação, pensa no futuro. Como acontece com tantos outras jovens, vai optar por emigrar. "Gostava de abrir o meu salão no Luxemburgo, onde tenho família. Acho que consigo ter lá uma vida melhor". Mas antes quer completar o 12º ano em Portugal, frisa.

Tal como Eunice, Érica, sua colega, foi para a ASI à procura de uma nova oportunidade. "Concorri porque já estava desmotivada na minha antiga escola. Nunca pensei entrar, mas consegui", conta, feliz.

A mãe e as amigas são o seu porto seguro. "A minha mãe também tirou o curso profissional de cabeleireiro e, quando soube que queria vir para aqui, sempre me apoiou".

Nos últimos meses, Érica e Eunice aprenderam a fazer madeixas, brushings, mises e colorações, técnicas que aperfeiçoam todos os dias. Às quintas de manhã, o salão da ASI abre para clientes externos e é nessa altura que dão o seu melhor.

Com elas trabalham, ainda, 12 raparigas e um rapaz. Sónia Trindade é a formadora. Está há mais de uma década na aldeia a ensinar o ofício e a transmitir valores como "a perseverança e o empenho", diz. Ser formadora foi um caminho natural. 

"Fui formanda nesta escola, tirei o curso que hoje ensino, com gosto. Felizmente, tenho a hipótese de fazer o que gosto e de ajudar estes jovens, da mesma maneira que me ajudaram a mim", salienta. 

No início, a ideia de ser formadora assustou-a. "Tinha 25 anos e achava que era muito jovem para me fazer respeitar", desabafa.

O curso profissional de cabeleireira é um dos nove disponíveis na Aldeia de Santa Isabel. Há, também, construção civil, pintura automóvel, eletricidade e jardinagem, entre outros. Os cursos são frequentados por jovens dos 15 aos 24 anos e orientados por cerca de 50 formadores.

Sendo um curso procurado maioritariamente por raparigas, Sónia Trindade congratula-se pelo aparecimento de alguns rapazes.

"Há sempre um ou dois rapazes que se inscrevem e frequentam o curso de cabeleireiro, apesar de alguns não chegarem ao fim. Nesta idade, os jovens são um pouco cruéis e acabam por desistir devido aos estigmas que ainda existem", explica a professora.

"Sinto-me realizada quando os vejo sair daqui com objetivos bem definidos. O mais difícil é gerir a indisciplina e a assiduidade, mas este curso tem um nível de empregabilidade acima dos 90%", sublinha.

Uma das suas formandas abriu um cabeleireiro em Lisboa, muito bem-sucedido, que tem acolhido alguns dos formandos da ASI para fazer estágio, o que muito orgulha Sónia.
 
Segundo o diretor, António Amaro, para o próximo ano letivo, os grandes objetivos da ASI são alargar a oferta formativa e conseguir a homologação de cursos que possam ter equivalência ao 12.º ano.


Um encontro de gerações

Projeto de inserção social intergeracional, a Aldeia de Santa Isabel acolhe crianças, jovens em risco e idosos num espaço de 6,5 hectares, onde antes funcionava um orfanato católico. Além das oficinas reservadas à formação profissional de jovens desfavorecidos, a aldeia tem também jardins, uma igreja, um lar, onde são acolhidas crianças sob proteção judicial e um lar de idosos.

Nesta "Casa do Homem de Todas as Idades", expressão pela qual é conhecida a aldeia, a proximidade e a solidariedade entre gerações acontece todos os dias.

No café central da aldeia, juntam-se pais, filhos, irmãos e avós. Em longas e descontraídas conversas, os mais velhos aprendem com os mais novos, atualizando conhecimentos, e os mais jovens absorvem a sabedoria dos "anciãos", assimilada ao longo de uma vida.

Afinal, é na intergeracionalidade que "reside a especificidade e o grande valor da aldeia", sublinha António Amaro.

3 de fevereiro de 2017

O refúgio dos artistas +

Alegria, convívio e atividade física +

Pousal: 53 anos a praticar Boas Causas +

O verão em que os festivais tocaram a todos +

Uma casa de portas abertas +

Descodificar sons, palavras e corações +

Voluntariado: uma forma de ajudar +

Santa Casa: Um festival dentro do MEO Sudoeste +

Fantoches e crianças vão à praia +

Cristina, a rainha das medalhas +

1 2 3 >
Facebook