Reportagem da Semana
Uma terapia chamada música
A Associação Portuguesa de Música nos Hospitais tem como principal objetivo a realização de intervenções musicais em instituições de saúde  e  de solidariedade social. Este projeto está presente no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.

As intervenções musicais ocorrem de forma regular e implicam o trabalho de uma dupla de músicos com formação específica para o efeito. Semanalmente introduzem-se momentos de alegria que sobressaem em todos os recantos do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), proporcionando a todos um momento de pura alegria e animação, tornando os espaços e ambientes mais humanos.

"Músicas é o que temos para oferecer e o troco é o sorriso", conta Cátia Reis, vice-presidente da Associação Portuguesa de Música nos Hospitais (APMH), entre as canções que vai entoando, juntamente com Diana, intérprete da APMH, pelos corredores coloridos do CMRA.

Alecsandro, natural de Santa Catarina, no Brasil, está no centro pela segunda vez este ano. Escuta com atenção a garota de Ipanema, de Vinícius de Moraes, brilhantemente interpretada por Cátia e Diana.

"Que alegria, há alguns anos que não ouvia esta música, por momentos parece que viajei até ao Brasil", diz sorridente.

Soldador num dos "espaços da moda" em Lisboa, no LX Factory, e pai de duas crianças, a sua vida, que considerava "perfeita", mudou irreversivelmente devido a um mergulho mal calculado, no verão de 2016, onde ficou tetraplégico.

"Tudo isto começou há cerca de um ano. Num dia normal de verão fui com a minha família para um passeio. Devido a um mergulho inconsciente, fiquei numa cadeira de rodas".

Apoio e motivação não tem faltado a Alecsandro. Embora longe da família e do seu bem mais precioso, que são os filhos, o brasileiro diz que se sente "motivado e empenhado" na recuperação. 

No CMRA, tal como Alecsandro, estão muitos utentes em situações de fragilidade emocional. A Música nos Hospitais serve para esquecer a doença e para atenuar as muitas saudades de casa.

"Gostamos de transportar os doentes para um ambiente que lhes é familiar, fora do contexto hospitalar, se estivermos a cantar para um menino inglês, cantamos uma música em inglês. Assim conseguimos trazer um bocado de casa até aqui ao hospital", frisa a artista.

Ao longo de duas horas, os músicos da associação percorrem os corredores do centro em busca de sorrisos. Concertos em sítios improváveis fazem as delícias de quem passa e para.


É no bar do CMRA que a música e o concerto ganha outra dimensão. Em mesas separadas alguns utentes reúnem-se com as suas famílias para serões, que mais parecem pequenas festas de aniversários.

"Olha temos música e tudo", exclama Clarisse Martins, de 45 anos, utente do centro há quase dois meses. 

O foco das artistas era agora Clarisse e os seus familiares. Depois de serem entregues alguns instrumentos a banda estava montada. A timidez deu lugar a sorrisos e a rimas desordenadas, mas constantes.

"É uma alegria, basta haver música para que nos sintamos noutro lugar. Ainda por cima cantam muito bem", desabafa Clarisse com um sorriso nos lábios.

Para Ana Rita Henriques, coordenadora do Núcleo de Animação Cultural e Recreativa (NACR), do Centro de Medicina e Reabilitação do Alcoitão, este é o verdadeiro propósito de trazer a Musica nos Hospitais para o centro.

"Esta atividade serve essencialmente como um complemento terapêutico. Queremos que eles sintam que este não é apenas um hospital, mas uma casa temporária em que somos uma família unida e bem-disposta", comenta.

A Associação Musica nos Hospitais teve início em Portugal no ano de 2002, através de uma conferência do Professor Victor Flusser da Universidade de Marc Blosch, Estrasburgo, numa reunião do Instituto de Apoio à Criança.

Foi formalmente constituída em Abril de 2006 pela Dr.ª Ana Jorge e pelos primeiros músicos especializados nesta área, da formação de 2004-2005. Tem nos seus órgãos sociais e de direção pessoas com mérito reconhecido na área da saúde assim como na música e áreas congéneres.

A realização do protocolo de cooperação com o CMRA surge em julho deste ano. Desde então o projeto foi sofrendo alterações e passou em setembro a ter uma periocidade semanal, às segundas-feiras.

"Desde a primeira hora que tivemos a convicção de que este era um projeto que queríamos abraçar, não só porque tem na sua essência levar a alegria aos nossos utentes, mas também, porque a música é uma terapia muito forte", concluiu a coordenadora do NACR.

13 de outubro de 2017

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