Reportagem da Semana
Vidas resgatadas: a experiência de ser sem-abrigo
Esta é a história de Kennedy, Miguel e Eduardo. Um está desempregado, os outros começaram agora a trabalhar. Foram atirados para a rua, desejaram a morte, desceram ao fundo... mas levantaram-se.

Todos os dias há novos sem-abrigo em Lisboa. No Cais do Gás, perto do Cais do Sodré, a Unidade de Atendimento à Pessoa em Situação de Sem Abrigo (UAPSA), gerida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), não tem mãos a medir. A sala de espera está cheia. Vêm de todos os lados, a maioria para se apresentar como prevê o seu processo de acompanhamento.

Não há só pessoas dependentes ou com algum tipo de perturbação, mas muita gente que não consegue emprego, que não tem dinheiro para pagar a renda de casa ou para se alimentar. 

Sem forma de se sustentarem, só lhes resta a rua. A ausência de suporte familiar, o desenraizamento, explicam o resto. Esta é a história de três pessoas que bateram no fundo e, aos poucos, estão a recuperar as suas vidas, com a ajuda da Santa Casa.

Maus tratos e negligência familiar

Miguel Ângelo, 22 anos. Num dos gabinetes da UAPSA, o jovem contempla o rio Tejo num dia quente de outono. Com cerca de 10 anos, foi abandonado pelos pais. Até aos 18, esteve institucionalizado. O regresso a casa revelou-se amargo. A rua foi o seu destino.

Miguel recorda a primeira noite que passou na rua: "Foi muito difícil". 

Dormiu na Alameda Dom Afonso Henriques num banco de jardim, sozinho sem saber o que fazer à sua vida. "As pessoas ignoravam-me. Diziam-me: ‘Faz-te a vida, vai trabalhar'", recorda. Chorou muitos dias, a tristeza tomou conta de si. Pediu dinheiro e arrumou carros para sobreviver. Foram 30 noites a viver na rua. O mais difícil era a "vergonha" e ser "olhado de lado".


Encontrou ajuda na Misericórdia de Lisboa. Está numa casa de transição, uma estrutura residencial, que promove a autonomia, com vista à integração social. Além de um teto, tem direito a alimentação e recebe outro tipo de apoios. 

Hoje, Miguel está a trabalhar na restauração e sonha ter uma família e comprar uma casa. "A Santa Casa é uma família, algo que eu nunca não tive", sublinha.

Voltar a Portugal com a roupa no corpo

Longe vão os tempos em que Kennedy Casanova, 51 anos, vivia em Carcavelos. Quando tinha 20 anos foi para a África do Sul para tentar vencer o problema da dependência da droga. Conseguiu. "Mudei de país para largar a droga e nunca mais lhe toquei", conta. Lá, fez vida, constituiu família e teve um filho. 

Já na Turquia, foi professor de inglês. A vida sorria-lhe. Mas devido aos recentes problemas políticos naquele país, teve de pedir ajuda à Embaixada para ser repatriado para Portugal. "Vim parar diretamente à Santa Casa, trazia uma mala e a roupa no corpo". 


"Não tenho família em Portugal. A minha família é a SCML", diz Kennedy, emocionado. Conta que não chegou a viver na rua porque a Misericórdia de Lisboa conseguiu articular-se com o Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e encaminhá-lo diretamente para o Centro de Acolhimento Temporário Mãe de Água (CATMA).

"A Santa Casa ajuda-me com alojamento, refeições, apoio psicológico e com a roupa com a qual consegui emprego como motorista", revela. "Sem a Santa Casa não sei como seria a minha vida", diz Kennedy. "Não foi uma situação fácil. A minha vontade era atirar-me da Ponte 25 de Abril, mas com ajuda da SCML, não desisti e decidi que quero viver", conclui.

Do céu ao inferno

Os casos de vidas estáveis e confortáveis que desabam, multiplicam-se. É o exemplo de Eduardo Salvador, 65 anos. Viveu um sonho: foi gerente e diretor-geral de uma empresa da indústria petrolífera. Teve cargos importantes e vencimentos à altura. Estudou Engenharia Eletrotécnica e Informática. "Tinha uma vida muito desafogada", conta.

Tudo tombou, por volta de 2005, a partir do momento em que a empresa para qual trabalhava faliu. Ainda trabalhou para mais cinco empresas da área. Mas deixou de ter capacidade económica em 2016. Nesse ano, depois de já ter vendido os seus pertences e sem conseguir trabalho, foi atirado para a rua. 


"Fiquei sem chão", relata. Desesperado, tentou suicidar-se por duas vezes em junho de 2017. Após a última tentativa, acordou no Hospital de São José. Um dia depois foi internado por 15 dias no Hospital Júlio de Matos. "A vergonha e o preconceito levou-me ao suicídio", conta, em lágrimas.

Foi reencaminhado para o UAPSA. Aqui, deram-lhe alojamento, alimentação e apoio para o dia-a-dia no Centro Mãe de Água. "Eu vou transcender isto tudo. A Santa Casa, neste momento, deu-me essa esperança. A Santa Casa é qualquer coisa que não pensei que existisse em Portugal", diz, comovido.

"Fui um sem-abrigo durante três dias. Realinhei os meus objetivos e, hoje, quero viver", realça.

Um modelo que privilegia a prevenção e promove a integração social 

A Unidade de Atendimento à Pessoa em Situação de Sem-Abrigo (UAPSA), no Cais de Sodré, está aberta todos os dias úteis das 9h00 às 18h30, não sendo necessária marcação. 

"Somos um serviço de porta aberta. O público-alvo são as pessoas que se encontram em situação de sem-abrigo, domicílio instável ou em situação de emergência social. São, igualmente, atendidas pessoas que requerem proteção internacional", esclarece Marisa Melo, coordenadora do Serviço de Atendimento de Emergência da SCML.

Depois das 18h30 e até às 9h00, durante 365 dias por ano, abrem-se as portas do Centro de Acolhimento Temporário Mãe de Água, com capacidade para 36 utentes, para dar resposta às situações de emergência sociais ou temporárias.

"A UAPSA tem, em permanência, uma equipa de triagem composta por um assistente social e um psicólogo para atender situações novas. Os técnicos fazem um pré-diagnóstico e respondem às necessidades imediatas das pessoas (seja alojamento, alimentação, tratamento de saúde, higiene, etc.)", esclarece Celeste Brissos, diretora da Unidade de Emergência da SCML.

Há, ainda, uma equipa de rua que responde as sinalizações de pessoas em situação de sem-abrigo. 

Ninguém fica na rua

Na UAPSA, numa primeira fase, as pessoas veem as suas necessidades de subsistência asseguradas de imediato. "O nosso lema é não deixar ninguém na rua", destaca.

A saúde mental, a dependência, a empregabilidade, a família, a idade avançada e os requerentes de asilo são os principais problemas que chegam ao UAPSA.

Num segundo momento, em reunião de equipa, os técnicos aprofundam o diagnóstico realizado e identificam os recursos a acionar para o plano individual de inserção.

"É preciso desmistificar que a pessoa sem-abrigo vai ser a vida inteira sem-abrigo. Muitas vezes é uma situação de crise da vida das pessoas e que nós acreditamos e, temos essa confirmação diariamente, que com o apoio dos nossos serviços pode ser ultrapassável", considera Celeste Brissos.

Trabalho de equipa

A UAPSA funciona num espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, e é gerida pela SCML, permitindo uma intervenção integrada que agrega todos os serviços e instituições da Rede Social de Lisboa que trabalham com as pessoas sem-abrigo ou em situação de emergência social.

Esta Unidade é também a sede do Núcleo de Planeamento e Intervenção da Pessoa em Situação de Sem-Abrigo (NPISA), constituído pela Misericórdia de Lisboa, pela Câmara Municipal de Lisboa, pelo Instituto de Segurança Social e ainda por 23 entidades de solidariedade social.

O equipamento social da cidade de Lisboa assegura o acompanhamento dos sem-abrigo, proporcionando um atendimento mais completo e centralizado, evitando que tenham de bater a sucessivas portas e, também, que as instituições dupliquem apoios e estratégias.  

O espaço, dividido em dois pisos, foi equipado com uma receção, salas de espera e de enfermagem, balneário, um banco de roupas e seis salas de atendimento, uma das quais com um espaço para crianças. No piso de cima, foram instalados os gabinetes para os técnicos das diferentes instituições.

17 de novembro de 2017

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