Reportagem da Semana
Vinte segundos de coragem, sete meses de voluntariado
"Só precisamos de vinte segundos de coragem, depois pode acontecer sempre uma coisa boa." Foi este o lema que levou um enfermeiro do CMRA a fazer voluntariado, à volta do mundo, durante sete meses.

Ajudou a construir uma escola por entre as ruínas do Nepal. Calcorreou as selvas do Amazonas, onde comeu formigas para matar a fome. Ensinou inglês numa escola budista de Mianmar e, no Brasil, teve de fugir descalço de dois assaltantes armados. Durante sete meses, Luís Pinheiro enfermeiro do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), andou pelo mundo sozinho, de mala às costas, a fazer voluntariado e ajudar por onde passava. Estas são as suas histórias.

Já passaram alguns meses desde que Luís, de 30 anos, voltou da sua viagem ao redor do mundo, mas os efeitos ainda se fazem sentir. Quando fala sobre os sítios que visitou, e sobretudo das pessoas que conheceu, a sua voz é subitamente embalada pelo entusiasmo. Tem muitas histórias para contar e, com a magnífica vista do último piso do CMRA como fundo, vai começando a discorrer alegremente sobre a sua jornada.

"Porque não?". Esta foi a pergunta que este alentejano de gema fez a si mesmo antes de partir. O sonho de andar de mochila às costas "já era muito antigo e podendo fazer essa viagem e ajudar, porque não? A minha pergunta é sempre essa. Porque não fazem as pessoas as coisas?"

E, "coisas" para fazer, foi o que não faltou a Luís, durante a sua aventura. Sendo enfermeiro, poderíamos esperar que a sua ajuda se materializasse sempre nas áreas da saúde. A primeira paragem na sua jornada mostra-nos o contrário. Quando chegou ao Nepal descobriu um país em ruínas vítima de um terrível sismo. Esteve num campo de refugiados, onde fez "maioritariamente pensos e pouco mais", porque cedo se apercebeu que as preocupações daquelas pessoas eram outras. "Só iam ter comigo quando estavam com uma ferida muito infetada ou algo que não podiam mesmo deixar passar." 

Isto porque as grandes preocupações dos nepaleses eram só duas e de ordem logística: comida e casa. Apercebendo-se disto, Luís entrou em contacto com a associação Hope Camp, da qual só têm coisas boas a dizer. "Além de construírem as vilas, estão a dar formação às pessoas, nas áreas da construção e da saúde, para as tornar autossuficientes, e eu achei isso fenomenal." Com as indicações da Hope Camp, seguiu para o norte do Nepal para ajudar na construção de uma escola. Por entre estradas de terra batida, que eram mais escombros do que ruas, pintou paredes, distribuiu sorrisos e deu uma ajuda em todas as atividades para que era solicitado. Depois partiu. "Fiz o meu trabalho, fui produtivo" afirma com convicção, "depois tens de avançar. Avança porque vais fazer mais alguma coisa produtiva no futuro, vais aprender e vais ajudar mais pessoas."

Quando chegou a Mianmar, não planeava demorar-se. Acabou por ficar uma semana. "Fui bem acolhido e por isso é que fiquei mais tempo" - é esta com esta explicação, de uma simplicidade desarmante, que justifica a sua estadia mais prolongada. Durante esse período, ensinou inglês numa escola de crianças budistas. As diferenças que encontrou não paravam nos "giros uniformes cor-de-rosa" manifestavam-se sobretudo na atitude dos seus pupilos". "Tudo o que tu levas para lá eles recebem e absorvem com rapidez, como se fosse a única oportunidade deles. Não é como cá. Cá temos tudo e às vezes não valorizamos. Lá, eles [os alunos] têm um respeito e uma alegria que achei muito curioso."

Fotografia cedida por Luís Pinheiro

Seguiu para Laos, onde "deu uma ajuda pontual" a um grupo com várias crianças e jovens deficientes motores. Daí, partiu para o Camboja, onde tinha acordado apoiar uma comunidade com cerca de 30 crianças, vítimas de violação e maus tratos. Mas, por uma razão caricata, este trabalho acabou por não se realizar. É que na organização estavam convencidos de que Luís era uma mulher. Quando descobriram que não era assim, não o deixaram ficar. O enfermeiro ainda tentou pagar do seu bolso a estadia noutro local e convencer a organização a deixá-lo ir apenas de dia ajudar, mas o medo e a precaução dos responsáveis falaram mais alto. Mesmo assim, não deu a estadia no Camboja como tempo perdido. Aproveitou e visitou um centro de reabilitação em tudo semelhante ao CMRA. Em tudo... menos nos meios. "Mostraram-me as próteses e as cadeiras de rodas que usam e são coisas que aqui estariam num museu mas que lá estão a ser usadas, porque não tem mais nada".

Por falar em Alcoitão, Luís confessa que os seus oito anos como enfermeiro da instituição foram fundamentais nesta sua aventura. "Durante estes anos todos [no CMRA], aprendi muito. As pessoas, que por aqui passam, também têm muitas dificuldades e levei um bocadinho disso para a minha viagem. A minha realidade aqui ajudou-me a enfrentar a realidade que encontrei lá fora, e todos os cursos e formações que fui tirando [pela SCML] também me ajudaram muito".

Depois do Camboja, seguiu para uma nova viagem. Passou ainda por muitos países. Percorreu muitas estradas poeirentas. Visitou cidades, aldeias, favelas, templos e, em São Paulo, andou até por entre as ruas da temida Cracolândia. Foi assaltado duas vezes, ameaçado com uma pistola numa ocasião. Quem tiver a sorte de ouvir as histórias da viagem de Luís, aperceber-se-á que este enfermeiro ajudou mais do que o que diz e viu e sentiu mais do que o que podemos contar. Têm em si, um sem fim de histórias de boa vontade e aventura, cheias de aprendizagens. 

A penúltima paragem da sua viagem, o sítio onde se demorou tempo e aquele que considera ser "a cereja em cima do bolo" foi o Brasil, ou para ser mais exato, a Amazónia.

Esteve um mês por entre a florestação luxuriante e o calor húmido que se cola como uma segunda pele. Num local onde "o tempo corre de outra maneira". Longe de quase tudo, mas a trabalhar de perto com as comunidades índias que ladeiam o Rio Negro. Estas pequenas comunidades isoladas pululam nas margens do rio e estendem-se desde Manaus até à selva. Estão tão afastadas entre si que uma viagem "rápida" de barco pode durar dois dias ou mais. Foi aí, com uma irmã salesiana que trabalha há muitos anos na zona, que Luís desenvolveu o trabalho de que mais se parece orgulhar. À chegada, confessa que "não sabia o que ia encontrar". E o que encontrou foi pouco. Muito pouco. "Eles precisam de tudo. Não têm nada".
 
À falta de meios, aliavam-se, muitas vezes, outros fatores perigosos e preocupantes. "Os delegados de saúde, que são responsáveis pelas comunidades, não têm nem meios, nem conhecimento. Felizmente, nesta ocasião, eu e uma outra enfermeira estávamos presentes. Nessa altura, detetamos mais de 20 casos de malária. A doença já estava bem avançada, com febres intensas e espasmos. Tivemos de pedir socorro e e tirar as pessoas dali".

Além de ajudar os índios, Luís viveu entre eles e passou pelas mesmas dificuldades. "Lá, se tiveres uma bolacha, tens um pequeno-almoço de rei. Muitas vezes o meu pequeno-almoço foram formigas. Fritavam-nas e depois comia-as ainda vivas."

Essas dificuldades, no entanto, não mancham as suas memórias. Louva, pelo contrário, e de forma veemente, a simplicidade e a atitude que encontrou neste povo. "Tive um índio que me disse que eles têm tudo e o que não têm tentam colmatar com alguma boa vontade. Ouves isto de quem não tem nada e parece que até ficas mais preenchido."

Foram relatos como este que levaram Luís a dar uma resposta inesperada quando lhe perguntamos se foi difícil adaptar-se à cultura amazónica.
"Os índios estão cá, não estão lá".

Fotografia cedida por Luís Pinheiro

Apesar das imensas dificuldades, o voluntário afirma que recomendaria uma viagem semelhante a toda a gente. Quando questionamos o porquê da recomendação, a resposta é clara e vêm sob a forma de desabafo. 

"Quando estava na primeira ação que fiz apeteceu-me chorar. Só por estar a fazer bem. Quando fazes bem parece que ficas mais preenchido. Não há explicação. Quando vais, não estás à espera de receber nada, só queres fazer algo de útil. E depois vês que é diferente. Vês que estás a fazer bem às pessoas e elas recebem-te e acarinham-te de uma forma que, cá, nem nos teus amigos vês. Depois é como uma bola de neve, "quanto mais fazes, mais queres fazer."

No final da conversa, surge-nos a pergunta que urge ser feita. Questionamos o enfermeiro sobre o que guarda e destaca na sua memória. A resposta é reveladora. 

"As pessoas. As pessoas é que fazem os sítios e o mundo está cheio de pessoas boas. São elas que guardo na memória. Aprendi muito, especialmente com as mais simples e as mais pobres".


28 de outubro de 2016

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