“O Outro como epifania do belo”: quando a beleza e a hospitalidade coabitam no mesmo espaço

Exposição promovida pela Santa Casa e pela Brotéria está dividida pelos diferentes espaços do Polo Cultural de São Roque para “interrogar artistas e públicos sobre a beleza que há no outro”.

Cartazes colados na calçada anunciam “O Outro como epifania do belo”. A viagem pela exposição começa no Largo Trindade Coelho. É aqui, junto à escultura da artista Fernanda Fragateiro, que a diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Margarida Montenegro, inaugura a exposição polinucleada que, até 5 de setembro, estará patente no Polo Cultural de São Roque, formado pelo Largo Trindade Coelho, Igreja e Museu de São Roque, arquivo e biblioteca da Santa Casa e Brotéria. Devido à proximidade e importância que tem, este polo foi estendido ao Convento de São Pedro de Alcântara que, tal como acontece nos outros locais, estará de portas abertas de terça a sábado, das 10h às 18h, para quem quiser contemplar a exposição.

Quatro artistas plásticos contemporâneos e dois curadores apresentam propostas adequadas a cada um dos espaços, tendo por base o tema da hospitalidade. O tópico foi lançado em 2018 e foram já desenvolvidas várias iniciativas nessa linha, uma vez que o conceito da hospitalidade está intrinsecamente associado à missão da Misericórdia de Lisboa. Esta exposição é isso: uma resposta ao tema da hospitalidade como desígnio para uma cultura do outro. É, ainda, uma tentativa de interrogar artistas e públicos sobre a beleza de quem nos rodeia, seja ela qual for.

“Há cerca de dois anos começámos a perceber que estavam a surgir, no Largo Trindade Coelho, vários espaços culturais. Então achámos que faria sentido criar um polo que se articulasse entre nós todos. Esta exposição é exatamente o fruto dessa articulação, porque a Misericórdia tem uma missão hospitaleira”, destaca Margarida Montenegro.

Como representar o outro? Como trabalhar a relação com a hospitalidade? Estas foram as perguntas de partida para os  trabalhos de André Guedes, Fernanda Fragateiro, Joana Craveiro, Manicómio, Pedro Paixão e Rui Pimentel. Em cada exposição vemos obras que representam, nas mais variadas formas, o outro.

Helena Mantas, diretora do Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural da Misericórdia de Lisboa, acredita que a Covid-19 acentuou a mensagem desta exposição, sobretudo porque a pandemia alterou a forma como vemos o mundo, como, inconscientemente, olhamos para as pessoas à nossa volta como um  possível perigo. Mas não se pode relacionar a exposição apenas com a situação pandémica. Pode também ser uma forma de ler a grande movimentação de migrantes que tem acontecido nos últimos anos. Em cada obra está uma reflexão sobre a relação que temos com os outros, com a diferença, com o medo. “A ideia central é o outro como o belo, como algo que é bom”, explica.

Fernanda Fragateiro olhou para o Largo Trindade Coelho e viu um espaço muito poluído visualmente. Optou por não acrescentar nada, mas por substituir temporariamente. Neste caso foram os corrimãos da Igreja de São Roque que servem de apoio para quem enfrenta a escadaria daquele monumento. Os dois elementos escultóricos e arquitetónicos carregam uma dupla função, onde o observador é mais do que observador. Também é utilizador da própria obra. A ideia é que as pessoas usem os corrimãos e que tenham uma parte ativa na peça. Ao mesmo tempo, as esculturas são quase antropomórficas, pela semelhança com figuras que mais parecem pessoas que, do cimo das escadas, observam os outros que habitam o largo.

“A peça nasce de um olhar sobre este largo e de um desejo muito grande de entender o espaço e de perceber como é que eu posso contribuir para tornar o espaço melhor, mais amável. A diferença de cores entre as esculturas faz com que o outro aqui também esteja representado na diferença”, explica Fernanda Fragateiro.

À entrada para a Igreja de São Roque, ouve-se uma cascata de água. É a purificação. Ou melhor, a possibilidade de a atingir. O recurso ao som, à água e a São Roque transmitem a ideia de pureza e de cura. A obra do artista Pedro Paixão relaciona o desenho com a filosofia e a estética. O desenho é uma forma de retratar a ideia do sagrado e do profano através de figuras que representam o bem e o mal. É uma forma de mostrar que, independentemente daquilo que somos, todos podemos ser purificados.

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