Teatro para todos. “A audiodescrição ‘permite-me’ ver o mundo”

A peça “Ilhas” subiu ao palco este domingo, 23 de janeiro, e teve a particularidade de ser também destinada a invisuais. Munidas de um auricular, Joana, Maria e Carla, ouviram a audiodescrição que lhes permitiu “ver com palavras” um espetáculo no Teatro D. Maria II.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre o Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Teatro D. Maria II, no âmbito de um projeto de acessibilidade, que tem como intuito possibilitar o acesso universal ao edifício, à programação e a outras iniciativas desenvolvidas ao longo da temporada. O objetivo é que ninguém deixe de ir ao teatro, seja qual a for a condição que possua.

Foi com natural entusiasmo, curiosidade e alguma ansiedade que Joana, Maria e Carla, utentes do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos (CRNSA), equipamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – se preparavam para assistir à peça “Ilhas”, no Teatro D. Maria II, este domingo. Uma peça que traduz as imagens em palavras…

As pessoas cegas ou com baixa-visão que vão assistir à peça têm a possibilidade de entrar mais cedo, fazer um reconhecimento prévio do espaço, conhecer os atores e, depois, no espetáculo, com um auricular, ouvir a tradutora que fará a audiodescrição. O objetivo é descrever todos os movimentos, ações e todos os elementos de cenário. Como descrever um sorriso, uma careta, uma cara triste, uma expressão de surpresa ou de irritação, ou um movimento de dança para pessoas com deficiência visual? Este é um dos desafios da audiodescrição. Transformar o teatro numa experiência completa para quem não vê.

Os testemunhos

Joana Ribeiro, 27 anos, de Lisboa, não esconde a sua ansiedade e emoção. É a primeira vez que irá assistir ao teatro com recurso à audiodescrição. No átrio que antecede a sala Garrett, Joana conta que parece um sonho tornado realidade. Com apenas 5% de visão, a jovem utente do CRNSA faz teatro amador na SMUP, na Parede, e está bastante nervosa com o facto de assistir a esta peça de teatro. “Já era tempo da verdadeira inclusão. Nós estamos muito limitados, e esta iniciativa é uma oportunidade na igualdade de direitos”, diz sem rodeios. A sua mãe, Maria Ribeiro, destaca a “oportunidade” da iniciativa e a “diferença” que um espetáculo acessível pode fazer na vida de um cego ou com baixa-visão.

Já Maria Serra, 21 anos, tem cegueira congénita, mas uma vontade enorme de conhecer o mundo que a rodeia. A utente do CRNSA, é repetente nestas andanças. Já assistiu ao espetáculo “A Bela e o Monstro”, e ficou fã. “A audiodescrição ‘permite-me’ ver o mundo”, diz a jovem estudante no 12º ano. Maria e Sofia, a sua mãe, enaltecem as vantagens deste recurso e destacam a importância deste projeto para a igualdade de direitos e para a inclusão dos que, infelizmente, têm uma limitação. Através das palavras, “eu já consigo ´ver´ e perceber uma história”, diz sorridente.

Por outro lado, Carla Carvalho, 47 anos, escriturária, foi diagnosticada com baixa-visão há cerca de dois anos e meio. O céu caiu-lhe em cima, mas reergueu-se com a ajuda do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos. Na sua estreia num espetáculo com recurso a audiodescrição, a escriturária não esconde a sua curiosidade e espectativa. “Esta iniciativa é importante e sensibiliza para a problemática da inclusão”, defende Carla.

Respeito e valorização

O sentimento é geral entre as utentes. Sentem-se respeitadas e valorizadas, pois podem frequentar o teatro, compreender melhor os mais variados temas e conhecer várias obras, o que acaba encantando pessoas dos mais diversos públicos, com e sem deficiência visual.

Isabel Pargana, diretora do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, defende “a participação em experiências diversificadas, de âmbito cultural, recreativo, desportivo ou outro, que promovam um maior sentimento de pertença e de inclusão na sociedade e que sejam suficientemente desafiadoras para um crescimento pessoal e social”. A responsável pelo CRNSA afirma que “assegurar a audiodescrição numa peça de teatro é, sem dúvida, abrir a porta da cultura a novos públicos e contribuir para a igualdade de oportunidades, nomeadamente através da eliminação de barreiras de comunicação, tornando acessível, através de linguagem verbal, a informação que é, muitas vezes, apropriada visualmente”.

Cláudia Belchior, presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, sublinha que “o teatro, e mais ainda uma casa com missão de serviço público como o Teatro Nacional D. Maria II, é um espaço para todos. Tendo isto em mente, só faz sentido pensar a nossa programação de uma forma integrada, envolvendo todos os públicos. A audiodescrição é, por isso, uma ferramenta muito importante e que tentamos disponibilizar em cada vez mais sessões dos nossos espetáculos, permitindo que o público cego ou com algum tipo de deficiência visual possa deslocar-se ao Teatro, em total igualdade de oportunidades, e usufruir de uma experiência única.”

A responsável pelo Teatro D. Maria II defende que “a parceria com a Santa Casa é de extrema importância para o Teatro Nacional D. Maria II, uma vez que nos ajuda a prosseguir a nossa missão de sermos um Teatro mais democrático, inclusivo e acessível a todas e a todos.” E continua: “A Misericórdia de Lisboa tem estado ao lado do Teatro Nacional D. Maria II desde há três anos em duas vertentes. Por um lado, no envolvimento de públicos jovens, seniores e colaboradores da Santa Casa em atividades artísticas, como espetadores ou num âmbito formativo. Por outro, como patrocinador para a Acessibilidade, criando condições para que todos os públicos com necessidades específicas possam aceder ao edifício, à programação e às atividades do Teatro. Um dos grandes objetivos é continuar a trabalhar para que a nossa oferta para públicos com outras necessidades específicas seja cada vez mais alargada, sendo disso exemplo as sessões com Interpretação em Língua Gestual Portuguesa, Audiodescrição e as Sessões Descontraídas.

O teatro é um lugar de todos e para todos

Esta é uma prioridade do D. Maria II e da Santa Casa. Porque o teatro só se faz com todos, são já acessíveis a pessoas com mobilidade condicionada todos os espaços do edifício, uma conquista alcançada com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, patrocinador do D. Maria II para a área da acessibilidade.

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